O Brasil vive um cenário de crescimento econômico moderado – aquém do ideal – e a inflação é baixa se comparada com o histórico do país. A despeito da necessidade de fortalecer a participação social na arena pública e de melhorar a qualidade dos representantes, a democracia formal mostra-se consolidada. E as eleições que vão ocorrer este ano confirmam os avanços do processo democrático brasileiro: será a 6ª eleição direta para Presidente da nossa redemocratização recente. No entanto, questões como a direção do voto do eleitorado, os temas que sensibilizarão o eleitor e como os candidatos vão atuar ainda são difíceis de precisar.
Um aspecto estratégico e que precisa ser levado em conta é o fato de que o próximo presidente da República herdará um País com grande prestígio internacional. Com isso, aquele que ganhar a corrida presidencial deverá administrar pontos que integram a agenda global. Aí, entram em pauta temas como mudanças climáticas e desenvolvimento sustentável. Isto sem negligenciar as questões internas como segurança, reformas política e tributária, as receitas do pré-sal e o avanço dos direitos humanos no Brasil.
Os três principais candidatos já estão evidentes, embora alguns ainda não estejam oficializados. São eles: a atual ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef (PT-RS), o governador de São Paulo, José Serra (PSDB-SP), e a senadora Marina Silva (PV-AC). Outra possibilidade é a candidatura de Ciro Gomes (PSB-CE). Embora ainda encontre resistências, Ciro trabalha para que a aliança em torno do seu nome se fortaleça.
Eleitor e campanha
Para Paulo Calmon, doutor em Ciência Política e professor da Universidade de Brasília (UnB), esta eleição vai ser polarizada entre Serra e Dilma. “Não vejo possibilidade de um terceiro nome superar estes dois. É bom enfatizar que estamos apenas no início dos preparativos da campanha. E estas são marcadas por uma dinâmica muito grande, principalmente considerando uma candidata como a Dilma, um nome novo no cenário brasileiro”.
Já o historiador e membro do colegiado do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), Átila Roque, lembra que o início de uma campanha ainda é um momento turvo para descrever os rumos que esta tomará. No entanto, ele acredita que, do ponto de vista programático, será difícil para o eleitor perceber uma diferenciação muito grande entre os candidatos. “Todos devem falar dos mesmos temas: desenvolvimento com igualdade e continuidade das políticas de desenvolvimento econômico, social e ambiental. Provavelmente, todos vão se comprometer com a distribuição de renda e a promoção da igualdade”.
Roque acredita ainda que o eleitor tome sua decisão de voto a partir de fatores que dizem respeito à qualidade de vida, o que inclui segurança, saúde, educação, saneamento básico e elevação da renda. Quanto à corrupção, o historiador entende que a sociedade está mais sensível a este tema também. “O candidato que queira passar uma boa imagem pode centrar-se em dois pontos: qualidade de vida e ética. Estes são dois valores que importam para a sociedade”.
Candidaturas e plataformas
Para outro membro do colegiado de gestão do Inesc, o filósofo José Moroni, as candidaturas para 2010 já estão postas – com a ressalva para a incerteza do nome de Ciro Gomes. Segundo Moroni, as candidaturas de Plínio Arruda (PSOL-SP) e Marina Silva poderiam trazer novos elementos para o debate político, mas ele não crê que elas tenham esta força. “Para que isto ocorresse, deveria haver um forte movimento da sociedade, o que não está posto até o momento”. Na avaliação de Moroni, as candidaturas de Dilma e Serra não possuem grandes diferenças do ponto de vista programático, mas as têm do ponto de vista político. “Plínio Arruda, provavelmente, fará uma crítica ao modelo que temos. Marina também, mas com alguns limites porque não quer se apresentar unicamente como uma candidatura ‘ecologicamente correta’. Já Dilma e Serra acredito que virão com um discurso de quem é o melhor ‘gerente’ para o Brasil”.
Os programas de governo devem passar, principalmente, pela manutenção do poder aquisitivo e elevação a renda das pessoas. É o que pensa Cândido Grzybowski, diretor geral do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase). No entanto, na hora de votar, a figura do candidato conta mais para o eleitor do que o programa propriamente dito. “O eleitor avalia é se o candidato vai garantir que o dinheiro continue entrando no bolso dele, se a renda continuará sendo distribuída”, avalia.
Para ele, a força das coalizões é outro fator estratégico no cenário eleitoral. “Isto conta muito em uma eleição. As alianças fazem mais diferença do que o programa de governo”. De acordo com Grzybowski, a candidata Marina Silva é um exemplo de ética e correção. Porém, ele estranha as alianças que estão sendo costuradas pela candidata. “Ela está caindo num campo que fica muito confuso e perde o discurso que, talvez, seria o mais correto. Também perde muito da sua credibilidade”. Já o enfraquecimento dos programas de governo se dá, essencialmente, por dois fatores: o não cumprimento do que foi previsto e o fato de os eleitores não lerem esses documentos.
Novos rumos
Existem alguns pontos que diferenciam as próximas eleições e que merecem ser observados. A estabilização da economia e do consumo de massa provocados, em grande parte, pela distribuição de renda provocou mudanças no quadro eleitoral. “Esta transferência direta aos beneficiários evita canais de intermediação de lideranças locais. O beneficiário recebe o bolsa família e outros programas sociais direto no cartão, sem necessidade da presença de um político local. Isso muda muito a visão do eleitor”, avalia o professor Paulo Calmon.
Outro aspecto que não pode ser ignorado é a velocidade com que a informação chega até as pessoas. Internet, twitter e outras redes sociais se constituíram em ferramentas estratégicas de mobilização de pessoas e grupos. E esta nova realidade deve moldar o eleitorado brasileiro. “Com as novas mídias, acredito que os candidatos vão ter que demonstrar mais clareza nas suas posturas e tomar mais cuidado com erros, que podem se disseminar muito rapidamente. Eles terão que manter muita coerência”, sintetiza Calmon.
Átila Roque resume suas expectativas em relação a esta eleição: “creio que o eleitorado colocará o voto em tudo aquilo que apontar para mais qualidade de vida e mais democracia”, diz otimista.
Agendas programáticas
O mundo mudou e as agendas nacional e internacional ganharam novos temas. A questão ambiental é a mais lembrada, mas existem outras pautas que, dependendo do momento, aparecem com mais ou menos força. Diante deste cenário, é fundamental que a sociedade brasileira esteja atenta não só para as necessidades mais evidentes, mas também para futuros dilemas.
Segundo José Moroni, a agenda para esta década deveria ser pautada em cinco grandes eixos: o "modelo de desenvolvimento"; as desigualdades regionais; o avanço nos processos democráticos; a presença que o Brasil deve ter no cenário internacional; e o respeito às mudanças comportamentais. “Não podemos, em pleno século XXI, ainda conviver com a sub-cidadania de mulheres que não podem decidir sobre seus corpos, dos homossexuais não poderem ter suas relações reconhecidas pelo Estado, do racismo, da homofobia etc”.
Mais do que impactar a agenda das eleições, a mudança de paradigmas consiste no desafio a ser superado pela gestão do próximo governo. “É preciso uma revisão radical das bases sobre as quais se sustenta o desenvolvimento brasileiro. Este já se mostrou produtor de desigualdades, de destruição ambiental e incapaz de fazer uso dos recursos sociais, econômicos e naturais de forma equilibrada. A fórmula ninguém tem. Mas, tem que se reconhecer que este modelo está fracassado e colocá-lo em questão”, conclui Átila Roque.
Fonte: Instituto de Estudos Socioeconômicos- INESC
http://www.inesc.org.br

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