domingo, 11 de abril de 2010

Nada além da verdade

Por Erlon Cristiano Lavor de Oliveira *

No mundo em que vivemos há muita mentira. Seja nos regimes políticos e profissões, ciências e religiões, artes e literatura, crenças místicas e filosofias, nada está imune a esse mal. Vivemos sob o império da mentira e da falsidade. Seja no campo pessoal, nos relacionamentos humanos, nas pregações de falsos mestres e gurus, no discurso político e mesmo na linguagem "convenientemente" dita diplomática, em que vemos grandes líderes fazerem declarações quando, de fato, querem dizer algo totalmente diferente. A realidade é que vivemos cercados da própria mentira camuflada.

O que podemos esperar como resposta ao tentar falar sobre verdade àqueles que vivem mergulhados na mentira ou na falsidade?

É muito difícil despertar nas pessoas o desejo de buscar a verdade. Muitos têm uma noção um tanto romântica a respeito da palavra "verdade". Só estariam dispostos a admitir que o homem pode chegar a conhecer a Verdade se alguém lhes mostrar a verdade total - aquela resposta universal e completa sobre as questões mais profundas e difíceis, para as quais o homem tem procurado resposta desde que o mundo é mundo. E, como ninguém consegue satisfazer esta exigência, concluem, como todo pensamento cético, que toda verdade é algo que de fato não se pode conhecer na sua plenitude. Mas esse tipo de exigência não expressa uma busca sincera pela verdade. A busca sincera inclui descobrir tanto as verdades corriqueiras quanto as supremas, sem exigir de maneira pronta e imediata respostas definitivas para todas as perguntas.

Muitos acreditam não existir nenhuma verdade além daquilo que é perceptível aos órgãos sensoriais. A "verdade" é a realidade como ela é. Na língua grega, a palavra para verdade é chamada alithia, que significa o não-oculto, o não-escondido, o não-dissimulado. Verdade é tudo o que se manifesta aos olhos do corpo e do espírito. Verdade é a manifestação de tudo o que é ou existe tal como é. Se ao comer certo alimento, percebermos que é amargo, o gosto do alimento deixa de ser uma suposição e torna-se de fato, uma certeza. Muitas pessoas acreditam que cada um tem a sua própria verdade, não existindo a verdade única ou universal por não haver percepções e sensações uniformes. Estas diferem de pessoa para pessoa e de situação para situação. Um exemplo: coloca-se uma mão na água fria e a outra na água quente; e, a seguir, ambas em água morna. Uma mão terá a sensação de que a água está fria enquanto a outra, a de que está quente. Afinal, em qual das mãos está a razão? Certamente, as duas sensações são verdadeiras, pois cada mão tem uma experiência anterior que justifica a sua afirmação.

Cada um de nós é avaliado de acordo com o preço que está disposto a pagar para alcançar a verdade. O ser humano, criado à imagem de Deus, não gosta do que não é verdadeiro e a busca pela verdade se manifesta desde cedo por isso ela é mais perceptível nas crianças, por sua pureza e autenticidade.

Elas não aceitam mentiras e ficam nervosas quando percebem que não lhes dizem a verdade. Insistem e perguntam aos adultos se algo "é de verdade ou de mentira". Mesmo quando adultos, o sentimento da busca pela verdade permanece em nós.

Um exemplo comum a todos é instintivamente tocar as flores de um arranjo bonito, cujas cores e beleza nos atraem. Por quê? Por querer a certeza de serem verdadeiras. O artificial pode até nos impressionar, mas isto não pressupõe que nos agradará ou nos convencerá.

Afinal, o que é a Verdade e como a reconhecer? Finalizemos com uma regra simples. Verdade é aquilo que nos leva a fazer o bem. A mentira é exatamente o contrário.

Apesar de a verdade ser o alicerce do mundo existe algo que é ainda mais importante: a paz! Por isso, esclarecem que há situações específicas nas quais se pode mudar ou omitir a verdade, se o objetivo final for manter a harmonia e a paz entre as pessoas. Mesmo se, aparentemente, a pessoa estiver mentindo, estiver sendo falsa, mas seu objetivo for nobre. Contudo, não devemos agir assim corriqueiramente para que a prática não vire hábito e passe a cultivar a mentira e a falsidade.

A verdade é, ao mesmo tempo, frágil e poderosa. Frágil porque os poderes constituídos podem destruí-la. Poderosa, porque a busca e a exigência do verdadeiro é o que dá sentido e razão à existência humana.

* Biólogo e servidor técnico administrativo em educação da Universidade Federal do Ceará – UFC.

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