terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Chuvas provocam estado de alerta em municípios do Cariri

Em áreas de risco de municípios do Cariri, a natureza sinaliza que as cidades têm construções inadequadas para chuvas

Para alguns, a estação das chuvas no Cariri é um momento de alegria, fartura neste rincão de terra. Outros se detêm à preocupação, por conta das moradias e obras de alto risco, que há anos não são muitas vezes concluídas ou corrigidas, gerando prejuízos ao erário público e à sociedade.

Em Barbalha, o Canal do Riacho Seco, que teve sua construção iniciada em 2006, ainda está por ser concluído. Os moradores do bairro Nossa Senhora de Fátima, já na desembocadura da obra, quase no encontro do Riacho Seco com o Riacho do Ouro, estão apreensivos quanto às fortes chuvas. Alguns estão em estado de alerta constante. O medo é que as casas à beira da vala sejam invadidas com a água fétida, cheia de lixo e areia na porta de casa.


Moradores da beira do Riacho Seco, em Barbalha, se arriscam na travessia do canal, enquanto a obra não é concluída. No final do trecho, o lixo se acumula e há possibilidade das casas serem invadidas pelas águas das chuvas (Foto: Elizângela Santos)

Os moradores fazem um apelo às autoridades para que a obra seja concluída o quanto antes. O que durante esse período se torna quase impossível. O máximo a ser feito, admite o secretário de Infra-Estrutura de Barbalha, Magno Coelho, é retirar o lixo e areia das áreas, o que já iniciou em toda a cidade, principalmente nos bueiros. Segundo ele, o trabalho foi emergencial por conta das chuvas.

O secretário destaca a sua preocupação em relação à obra. Disse que todas as providências estão sendo tomadas para que os trabalhos sejam concluídos. Ao longo do percurso, uma vala de quase dois metros de altura já foi coberta por uma laje de cimento. Mas o problema se agrava por conta das bocas de lobo, que não foram concluídas. A terra continua entrando na vala e resta apenas pouco mais de um metro para a água que entra com força das cabeceiras da Serra do Araripe e atravessa o Centro da cidade.

Outra grande preocupação, e risco iminente para os condutores de veículos e pedestres, se encontra a quase dois quilômetros da sede de Barbalha. A estrada que segue para o distrito de Arajara, no município, está cedendo. O trecho se encontra sem asfalto e não há espaço para a passagem de dois carros. Com a intensidade das chuvas, há forte possibilidade da estrada ficar interditada. Segundo o secretário, uma ordem de serviço está para ser assinada pelo governador do Estado para a construção de uma ponte no local e recuperação de vários trechos da estrada.

O secretário prevê o início das obras ainda em fevereiro. Mas em todo o município também vem sendo feito um levantamento completo para recuperação de ruas e calçamentos. A limpeza tem sido abrangente, já que a zona rural foi incorporada para que fosse feita a limpeza e melhoria de algumas áreas para facilitar o escoamento das águas.

Em Crato, o Canal do Rio Grangeiro, que atravessa toda a cidade, coloca em alerta os moradores, principalmente das margens. A água que desce com toda força do alto da serra, muitas vezes vem com um poder de destruição surpreendente. Uma das moradoras, Selma Geraldo Vilar, 70anos, há 35 anos mora à beira do canal. A avenida separa a sua casa dos paredões de cimento.

Providências urgentes

“Enquanto o clima de inverno dá tranqüilidade para muitas pessoas, para nós é um momento de preocupação. Ficamos, principalmente durante o mês de janeiro, praticamente sem dormir à noite. Quando dá uma neblina, vamos tomando todas as providências imediatas”, diz a moradora. As portas têm proteções especiais, para as casas não serem inundadas pela chuva.

Em anos anteriores, as cheias do canal — por conta de uma obra considerada pela Prefeitura um erro de engenharia que precisa ser corrigido — já provocaram vítimas fatais. No início da década, um morador da cidade chegou a ser tragado, junto com uma camionete Hylux, para dentro do canal e foi encontrado sem vida alguns quilômetros depois.

A recuperação de todo o canal, segundo o secretário de Infra-Estrutura do Crato, Jéferson Felício Júnior, pode custar até cerca de R$ 20 milhões. Uma obra que só pode ser feita em parceria com o Governo Federal, segundo admite o prefeito, Samuel Araripe.

Os prejuízos causados com trechos da obra destruídos são incalculáveis ao longo dos anos. E vários deles ainda necessitam passar por melhorias e serem fortalecidos para que não cheguem a arrebentar novamente. Tanto que durante esta semana, conforme o Felício Júnior, foi encaminhado ao Ministério da Integração Nacional projeto solicitando recursos da ordem de R$ 1,25 milhões para recuperação de vários trechos, onde o cimento já foi levado e a parte inferior está oca.

O secretário destaca que nos países desenvolvidos, como o Japão, atualmente não se faz mais canais de cimento. “É um tipo de obra ultrapassado”, diz ele. A visão dá Engenharia é dar uma adequação mais natural à área, com pedras e plantas, sem causar tantos prejuízos à natureza, além de proporcionar uma melhor paisagem — o que não aconteceu com o Canal em Crato. O que poderia ser um dos cartões postais da cidade, virou um grande paredão de cimento, que não tem como amortecer a passagem da água que vem com toda força do alto da Serra do Araripe.

Como é ter que conviver em áreas de risco?

José Marcos de Sousa
Pedreiro

Estamos todos com medo, mas não temos para onde ir. A água do riacho pode entrar nas casas. É o nosso temor

Vicente Alencar de Sousa
Servente de pedreiro

É um risco, mas não temos outro lugar para ficar. O medo é de uma chuva forte. Estamos na parte mais crítica

Selma Geraldo Vilar
Aposentada

Aqui é um sofrimento. No mês de janeiro, ficamos de alerta noite e dia. São 35 anos e não dá para se tranqüilizar

Elizângela Santos
Repórter

Mais informações:

Secretaria de Infra-Estrutura de Barbalha
Rua Miguel de Freitas, 184
Bairro Cirolândia
(88) 2532.0422

Fonte: Diário do Nordeste

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