sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

E o mundo (ainda) não se acabou

Em 1930, Sigmund Freud escreveu, em O mal-estar na civilização, que o homem estava se tornando um deus-prótese, com todas as extensões (“órgãos auxiliares”) criadas – e por criar – pela cultura e pela ciência, sem com isso se sentir mais feliz. Naquela mesma década, Adolf Hitler se tornava uma ameaça mundial, um cometa se chocaria contra a Terra, Orson Welles radiodifundia A guerra dos mundos, de H.G. Wells, e um samba-choro de Assis Valente, lançado em 1938 na voz de Carmem Miranda, ironizava o apocalipse não-concretizado: “Anunciaram e garantiram/ que o mundo ia se acabar/ Por causa disso/ Minha gente lá de casa/ Começou a rezar”.

O mais recente anúncio de mega empreendimento da ciência foi feito quando o supercolisor de hádrons entre a França e a Suíça ia entrar em funcionamento. O medo de que ele pudesse criar um buraco negro que engoliria o planeta levou ao menos uma adolescente indiana a cometer suicídio e muitos ativistas a tentativas de sabotagem. Mais uma vez, a mão descontrolada do “Dr. Fantástico” ameaçava a espécie com a autodestruição. Quando o filme de Stanley Kubrick com esse personagem-título foi lançado, em 1964, a tensão da guerra fria, da “destruição mutuamente assegurada”, do “alerta vermelho” atingira fazia pouco tempo um de seus momentos de clímax, com a crise dos mísseis soviéticos em Cuba (1962). Pairavam no ar o temor e a tentação de que a brilhante “energia que alimenta as estrelas” – segundo o físico Freeman Dyson – fosse liberada.

Em 1972, o Clube de Roma, grupo do Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT), dos Estados Unidos, formado em 1968, divulgou um relatório intitulado “Os limites do crescimento”. Naquele mesmo ano, a Conferência de Estocolmo pôs em evidência a necessidade de corrigir os rumos do desenvolvimento, até então sinônimo de destruição, problemas ecológicos e desigualdade social. Em 1973, a crise do petróleo parecia confirmar as previsões pessimistas do relatório. Nesse mesmo ano, a primeira bactéria transgênica ( Escherichia coli ) era criada por Stanley Cohen e Herbert Boyer nos Estados Unidos, gerando apreensão.

Ainda no contexto da Guerra Fria, em 1979, o filósofo Hans Jonas perguntava em O princípio da responsabilidade : “Que força deve representar o futuro no presente?” Essa força estaria nos direitos subjetivos das gerações futuras, que implicam embutir uma dimensão de cautela nas ações presentes. O poder dos físicos de manipular o coração mesmo dos átomos colocava o próprio futuro em risco. Antes da física nuclear, porém, coube à química deflagrar temores quanto ao potencial destrutivo da ciência e da tecnologia. O homem se descobria “aprendiz de feiticeiro”.

Veneno no front

Os conhecimentos teóricos e práticos acumulados em química foram percebidos como fontes potenciais de inovação e lucro por capitalistas da Alemanha já na segunda metade do século XIX. Frutos da chamada Segunda Revolução Industrial, quando a ciência foi incorporada como capital pela indústria e surgiram os laboratórios de pesquisa e desenvolvimento nas fábricas, a Bayer e a Hoechst foram fundadas em 1863, a Basf em 1865. No entanto, além de se prestar à fabricação de corantes e outras substâncias úteis, os químicos também não tardaram a desenvolver explosivos e outros agentes, como gases, com potencial para deter, ferir ou matar inimigos.

Pouco mais de trinta anos depois do surgimento das primeiras fábricas químicas, Nicolau II, czar da Rússia, instou 27 nações, na Conferência Internacional de Haia, na Holanda, a procurarem resoluções pacíficas para seus conflitos. Além de estabelecer normas para guerras em terra, proibir bombardeios aéreos e adaptar os princípios da Convenção de Genebra (1864) aos conflitos marítimos, a conferência elaborou uma convenção sobre o uso de armas químicas. O texto diz que os governos signatários se abstêm de usar projéteis cujo objetivo seja disseminar gases asfixiantes ou deletérios. Instruído a preservar a “inventividade” de seu país nessa área, o representante norte-americano foi a única voz dissonante, argumentando ser ilógico banir esse recurso quando outros com potencial semelhante ou maior de destruição seriam permitidos.

Mas a convenção logo foi desrespeitada. A Primeira Guerra Mundial ficou conhecida também como a “a guerra dos químicos”. O potencial de mais de 3 mil substâncias foi testado por pesquisadores de lados opostos; 13 chegaram a ser utilizados e 12 surtiram os efeitos desejados. Mas o agente que mais causou indignação foi o gás mostarda, lançado pela primeira vez contra os aliados em Ypres, na França, em 1917. Com o armistício, em 1918, as vítimas não cessaram de denunciar os horrores a que foram submetidas. Depois da guerra, os químicos tiveram de fazer uma verdadeira campanha para limpar a própria imagem. Na década de 1960, porém, voltaram a suscitar controvérsias.

A química foi parte inextricável da Revolução Verde, que aumentou a produtividade agrícola pelo mundo com base no trinômio adubo-pesticidas-sementes melhoradas. Em 1962, dados sobre os efeitos nocivos do pesticida DDT (Dicloro-Difenil-Tricloroetano) foram reunidos e tornados públicos por Rachel Carson em seu livro A primavera silenciosa. O napalm, líquido inflamável desenvolvido pelos norte-americanos durante a Segunda Guerra Mundial, e o agente laranja, mistura de dois herbicidas usados na agricultura, que se tornou arma química na Guerra no Vietnã, causaram novamente destruição e horror.

Mal-estar no século XX

Na Segunda Guerra Mundial, foi a vez de a física conhecer o pecado. Resultado do primeiro projeto de big science, a bomba atômica só foi usada em guerra uma vez na história, nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. Testes, no entanto, continuaram sendo realizados em diversos lugares do mundo, gerando protestos e debates públicos. O “relógio do juízo final”, estampado na capa do Boletim dos Cientistas Atômicos por mais de 50 anos, desde 1947, representa a proximidade da guerra nuclear. Meia-noite seria o início da guerra. No começo do século XXI, os ponteiros marcavam 23:51. Com a produção de armas nucleares pelo Paquistão, pela Índia, por algumas ex-repúblicas soviéticas e pela Coréia do Norte – e, mais recentemente, com o enriquecimento de urânio pelo Irã –, o pesadelo persiste: o mundo ainda pode se acabar.

Enquanto alguns físicos, como Werner Heisenberg, tentaram se eximir da responsabilidade pela bomba atômica – se não fizessem, outros a teriam feito de qualquer maneira –, Pierre Auger, Albert Einstein, Robert Oppenheimer tomaram iniciativas em prol da paz mundial e da discussão de questões morais pelos cientistas, como o movimento Pugwash. De acordo com o filósofo francês Michel Foucault, o poder nuclear é paradoxal: tão grande, que não pode ser usado. O que não impediu de se gerar uma corrida armamentista que rendeu a Hollywood centenas de roteiros para filmes de todos os tipos sobre ameaças nucleares. Mas o verdadeiro perigo, segundo Foucault, estaria na forma como a biologia se prestaria à gestão da vida. Aldous Huxley concordaria: a física poderia explodir o mundo, mas não revolucionar a vida, tarefa que caberia às ciências biológicas.

Nos anos 1970, o poder de manipulação da vida deu um salto. Fazia pouco mais de 20 anos que James Watson e Francis Crick haviam elucidado a estrutura em dupla hélice da macromolécula de DNA e cientistas já podiam “bricolar” genes entre espécies evolutivamente distantes. Com tesoura e cola especiais, chamadas de enzimas de restrição, os biólogos moleculares puderam misturar propriedades ou características de seres vivos cujos caminhos evolutivos divergiram há muito tempo, como aconteceu entre bactérias, plantas e animais.

O alerta quanto à segurança daqueles experimentos não tardou a soar entre os próprios cientistas em 1972. Pesquisas que envolviam a modificação genética de vírus geravam questionamentos: poderiam criar um novo e mortífero patógeno, como um novo agente causador de tumores? Qual seria o risco para quem trabalhava nos laboratórios? O que aconteceria se fossem liberados no ambiente? Em 1973, no Gordon Conference on Nucleic Acids, a maioria dos pesquisadores da nova área concordou em estabelecer uma moratória para os experimentos cuja segurança ainda não pudesse ser atestada. Em 1974, uma carta de vários pesquisadores encabeçada pelo bioquímico Paul Berg foi publicada na revista Science. Foi então que a imprensa descobriu a discussão sobre a segurança da tecnologia do DNA recombinante, que deixou o foro privilegiado dos pesquisadores para despertar fascínio e temores no público em geral.

Feiticeiro poderoso, aprendiz intimidado

Ao lado de modificações úteis de organismos como plantas e animais domesticados, desfilaram pelo imaginário e pela mídia aplicações temerárias, como a criação de supervírus ou superbactérias para exterminar populações inteiras nas mãos de bioterroristas. Para outros, tratava-se simplesmente de uma transgressão às leis da natureza, em que bactérias e plantas, por exemplo, não cruzam entre si. O debate foi intenso e levou os cientistas a organizarem a Conferência de Asilomar, em 1975, na qual reservaram uma sessão para a imprensa se familiarizar com as novidades. Mas a conferência não sustou a polêmica.

Governos locais, como o de Cambridge, no estado norte-americano de Massachusetts, promoveram audiências públicas sobre o tema ou foram pressionados a agir, como o de Ann Arbor, em Michigan. Em nível federal, 12 leis foram esboçadas nos Estados Unidos, mas nenhuma acabou sancionada. Com as diretrizes estabelecidas pelos institutos nacionais de saúde, a auto-regulamentação da atividade prevaleceu sobre qualquer controle externo. Divulgadas inicialmente em junho de 1976, as diretrizes foram revistas em 1979, quando as exigências para conter a a manipulação da bactéria E. coli pareceram excessivas. Nenhum dos acidentes anunciados se concretizou e novas revisões das diretrizes se seguiram. A partir dos anos 1990, com a sua comercialização, as plantas transgênicas também passaram a suscitar debates, protestos, campanhas de mobilização de consumidores, destruição de lavouras e atentados a laboratórios. A controvérsia se estendeu a todos os produtos das biotecnologias que surgiram desde então: reprodução assistida; medicamentos ou substâncias úteis fabricados a partir de bactérias, plantas ou animais transgênicos; clones, quimeras e clones transgênicos; órgãos para xenotransplante.

Em seu balanço do “breve século XX”, o historiador Eric Hobsbawm diz que não houve século tão penetrado pelas ciências e que tenha ao mesmo tempo se sentido tão pouco à vontade com elas desde a retratação de Galileu. Não houve avanço técnico nesse campo que não fosse acompanhado de uma pincelada pessimista e sombria sobre o futuro. Agora, o futuro se faz presente nas aplicações mais recentes do conhecimento científico, como a biologia sintética e as nanotecnologias, bem como no debate sobre o aquecimento global. Como disse Auger, em relação à física, o feiticeiro poderoso parece fadado a não passar de um aprendiz intimidado diante das consequências de seus atos. O mundo pode ainda não ter acabado, mas, quanto mais conhecimento a humanidade acumula, mais claro fica quanto é delicado o balanço entre a criação e a destruição.

Por Flavia Natércia

Fonte: www.comciencia.br

Primeiro inquérito sobre os horrores da guerra em Gaza

Nos ataques israelenses na faixa de Gaza morreram mais de 400 crianças e jovens de até 16 anos e mais de 300 mulheres e idosos. Somadas, essas vítimas são mais da metade do total de mortos, por sua vez também muito grande: 1.300.

A culpa é dos generais israelenses, que atacaram sem piedade, acusou o líder do Hamas, Khaled Meshal, quando proclamou de Damasco a vitória do Hamas. A culpa é do próprio Hamas, por não renovar a trégua com Israel, apesar dos apelos da Autoridade Nacional Palestina, acusou seu presidente Mahmoud Abbas, na Al Jazeera.

Certamente a culpa não é das crianças e suas mães.

A sociedade israelense, como que saindo de uma catarse, já começou um acerto de contas com a sua consciência. A maioria esmagadora apoiou a operação, depois de tantos meses de foguetes sobre o seu território causando pânico e o êxodo de mais de 20 mil pessoas para o Norte, mas a morte de tantas crianças é um peso que mesmo os corações mais endurecidos não conseguem suportar.

O sentimento de culpa coletiva pode explicar a avalanche de adesões à campanha da estudante Hadas Balas, que emitiu emails pedindo suprimentos para lotar dois caminhões para o povo da Gaza, e em poucos dias lotou dez caminhões. A ajuda veio de todos os cantos, desde uma Igreja Católica de Haifa até o movimento juvenil sionista Hashomer Hatzair.

Ainda antes de encerrada a operação, a Associação Pelos Direitos Civis de Israel já havia ocupado uma página inteira no Haaretz com obituários de crianças mortas em Gaza. No centro do anúncio, um quadro negro com a palavra “dai!”(basta!). Nesse mesmo dia, Ari Shavit, um dos principais analistas do Haaretz acusou a operação “cast lead” de ter ultrapassado todos os limites: ”O que era para ser uma operação militar calculada virou um assalto descontrolado sobre uma área populosa.”

Embora ainda em minoria, mais e mais vozes vão expondo perplexidades. “Como é possível que um povo que se dizia o único civilizado na selva do Oriente Médio tenha se tornado mais uma fera nessa selva? pergunta no jornal Iediot Aharonot o diretor do grupo pacifista “Iniciativa Genebra”, Gadi Blatiansky.

“Quando os canhões se silenciarem por completo e a escala das mortes e da destruição se tornar totalmente conhecida, ao ponto de mesmo os mais sofisticados mecanismos de auto-defesa da psique israelense caírem, talvez alguma lição se imprima nas nossas mentes”, diz no Haaretz o escritor David Grossman.

Expressivas, por sua singeleza, são as explicações dadas ao jornal Yediot Aharonot por militares que se recusaram a lutar: ”Israel explorou todas as possibilidades antes de recorrer à violência? A resposta é não. Israel está bombardeando uma das áreas mais densamente povoadas no mundo e matando mulheres e crianças ao mesmo tempo em que dificulta sua evacuação,” disse o tenente reservista do corpo de engenharia Noam Livneh. Não trata de pacifistas clássicos, que se recusam a matar por princípio. Esses também existem em Israel. Trata-se de cidadãos comuns, reservistas que já lutaram nas guerras anteriores, e não aceitam como única saída para lidar com o Hamas o tipo de operação concebida pelos generais ou o tipo de política determinada pelo governo. “Não sou pacifista, sei que é importante ter um bom exército, mas um exército para nos defender, não para atacar e conquistar!” diz o sargento reservista Bem Muha.

Oito grupos de defesa dos direitos humanos juntaram-se numa ação junto ao Procurador Geral do Estado de Israel exigindo que uma comissão independente investigue os ataques a civis durante a operação “cast lead”. O Exército impôs sigilo sobre os nomes dos comandantes das operações, para impedir que sejam identificados em processos por crimes de guerra. Ao mesmo tempo, abriu seu próprio inquérito sobre o uso de armas com fósforo, talvez para esvaziar um eventual inquérito internacional. Também criou um grupo de trabalho para reunir antecipadamente elementos de defesa. Por exemplo, provas de que atiradores disparavam de prédios residenciais.

As duas principais acusações até agora, formuladas pela Anistia Internacional e por Marc Garlasco, observador da Humans Rights Watch, são o recurso a bombas de fumaça com fósforo branco e o uso de força desproporcional. Garlasco, que está tentando entrar em Gaza, é o mesmo que acusou o Hamas de crimes de guerras por disparar foguetes à esmo contra populações civis em Israel. Só em 2008 caíram no Sul de Israel 3258 morteiros e foguetes, inclusive Katyushas. Já o observador da ONU Richard Falk, embora ainda sem ter estado em Gaza, diz que os indícios de que Israel atacou uma área densamente povoada sem facilitar a fuga dos civis são suficientes para abrir um inquérito.

A munição com fósforo branco em si não é ilegal, mas seu uso deve ser evitado em áreas de população densa. Os dados preliminares do inquérito do exército israelense indicam que isso aconteceu em uma operação na qual 20 projéteis com fósforo branco foram disparos em área densamente povoada em Beit Labyia. Outros 180 disparos teriam sido dados em áreas de campo aberto.

A ONU, segundo a Al Jazeera, acusa Israel de ter atacado 52 de suas instalações na faixa de Gaza, inclusive 37 escolas, três das quais serviam de abrigo a civis. Como isso foi possível, se Ehud Barak disse que a operação foi cuidadosamente planejada durante seis meses? Como isso foi possível, se além desse preparo operacional, foram utilizadas, segundo Amira Hass, três novas munições especialmente desenvolvidas para aumentar ao máximo a precisão do tiro e reduzir ao mínimo os efeitos ao seu redor, ou seja em populações civis?

O que deu errado?

A hipótese mais provável é a de que os generais israelenses, como acontece tantas vezes nas guerras, estavam lutando a batalha anterior, a batalha que perderam no Líbano há dois anos. Naquela desastrada operação, como mostrou depois o inquérito Vinograd, tudo deu errado, desde o processo decisório precário, falta de clareza na definição dos objetivos, até o colapso total da logística, ao ponto de nem o rancho ter chegado aos soldados do front. Exército e governo se desmoralizaram.

Por essa hipótese, embora a operação cast lead tivesse objetivos militares e políticos próprios, não foi escolhida a tática que minimizasse o número de baixas civis, e sim a que minimizasse as baixas militares entre os israelenses e que mostrasse competência logística e operacional. Restaurar a moral das forças armadas e do governo.

O reduzido número de baixas entre soldados israelenses, apenas 13, e dois informes da mídia corroboram essa hipótese: primeiro, as bombas de fumaça com fósforo, que segundo Marc Galasco, tem a finalidade de criar uma cortina de proteção ao avanço dos tanques. Uma lição da guerra do Líbano na qual Israel perdeu muitos tanques. Segundo, o relaxamento, pelos juristas do exército, de algumas regras de engajamento em combates em que há civis. Por exemplo, a diretiva: ”Sempre que possível a população civil na área alvo deve ser alertada”, foi atenuada com o adendo “a menos que isso ponha em perigo a operação ou os combatentes.”

Apesar das armas de maior precisão, esse relaxamento combinou-se de modo perverso com o tipo de guerra adotado pelo Hamas, levando ao número inaceitável - sob qualquer padrão de julgamento - de mortes de civis. O especialista Paul Beaver, ex-editor do Janes Defence Weeekly, com 30 anos de cancha em guerras no Oriente Médio , em longo artigo na Al Jazeera diz que o Hamas inventou um novo tipo de guerra, muito difícil de ser enfrentada que ele conceitua como “guerra no seio do povo”.

Não se trata da conhecida guerra popular prolongada, concebida pelos chineses, na qual o povo se organiza em exército marchando para o front ou desfechando ataques de guerrilha. É uma guerra trazida para dentro do próprio povo (“war amongst the people”, é a expressão que ele usa), uma guerra na qual disparos são feitos de casas e quintais, soldados e civis se misturam e alguns dos protagonistas não são Estados nacionais, embora possam ter sido legitimados por alguma eleição. “É uma guerra que se caracteriza também pelo uso intenso da mídia, declarações exageradas de ganhos militares, uso de foguetes sem direcionamento.” Para Beaver, tudo isso e mais a ameaça árabe, pela primeira vez, de atacar as instalações nucleares israelenses, “mudou a correlação de forças e o espaço para manobras” .

Durante todo o desenrolar da operação, Ehud Barak definiu vagamente que seu objetivo era “modificar substancialmente e de modo definitivo o cenário na região“, subentendendo-se que isso implicava por fim à capacidade do Hamas de lançar os foguetes Qassam e Katyusha sobre a população israelense. O fato do Hamas lançar foguetes mais poderosos, os Katyusha 110, com alcance de até 40 kilômetros, podendo atingir seis cidades grandes de Israel, indica que para alcançar esse objetivo era preciso também acabar com o contrabando dos foguetes enviados pelo Irã, daí o ataque aos túneis ao longo da fronteira de Gaza com o Egito, chamada linha Filadélfia. Daí o protocolo firmado com os Estado Unidos em plena operação comprometendo o governo americano num mecanismo de combate à entrada de mísseis em Gaza.

Mas o especialista da Universidade de Haifa, Dan Shiftan, define os objetivos da operação em termos mais amplos: “impedir que consolidasse entre a percepção de que os lançamentos de foguetes (contra a população civil de Israel) conjugados com o fervor islâmico era a arma definitiva contra a qual Israel não conseguiria lidar.” E a solução estratégica para isso foi “o ataque desproporcional aos centros vitais do Hamas, para transtornar sua percepção da relação custo-benefício nos lançamentos de foguetes".

Havia também o objetivo político de derrubar o Hamas? Muitos analistas, dizem que poderia chegar até esse resultado. Esse era o objetivo principal, diz Khaled Abu Toameh, analista do Jerusalém Post: “derrubar o regime do Hamas e devolver o controle da faixa de Gaza às forças leais à Autoridade Nacional Palestina do presidente Mahmoud Abbas.”

Por isso a operação teria contado com algum grau de aquiescência da Autoridade Nacional Palestina e dos governos do Egito e dos Estados Unidos, interessados em restabelecer a unidade política nos territórios palestinos em torno de uma liderança moderada e disposta a negociar um acordo de paz. O Hamas rejeita esse caminho. Sua carta de princípios propõe o estabelecimento de um Estado Fundamentalista Islâmico através do jihad – a luta armada como dever de todo muçulmano.

Nada se explica nessa guerra, se não se levar em conta a luta interna entre o Hamas e o El Fatah pela liderança da causa palestina. As prisões, assassinatos e mutilação de militantes do Fatah, durante a operação e depois da retirada, corroboram a centralidade do conflito e da luta pelo poder e pela representação da causa palestina entre Hamas e El Fatah. Obviamente o Hamas não esperava derrotar o poderoso exército israelense. Seu objetivo lançando foguetes diariamente contra Israel por meses e anos a fio ao mesmo tempo em que estigmatizavam o El Fatah como conciliadores que traíram a causa palestina só podia ser o da demarcação em relação a ANP de Mahmoud Abbas, que reconhece a existência do Estado de Israel e negocia as condições para a proclamação de um Estado Palestino.

Os líderes do Hamas acusam abertamente o El Fatah de traição. Salah Bardaweel , jurista ligado ao Hamas diz que espiões do El Fatah conduziram o ataque israelense que matou Said Siam, o ministro do interior do Hamas. Siam era tido como um dos maiores inimigos do El Fatah, responsável por dezenas de fuzilamentos de membros do El Fatah, quando o Hamas deu o golpe de força em Gaza, pouco tempo depois de vencer a eleição.

Provocar um levante pró-Hamas na Cisjordânia é hoje o objetivo mais ambicioso que o Hamas poderia alcançar. E mais fácil, depois do ataque israelense a Gaza. Lideres do próprio Fatah admitem que Abbas se enfraqueceu: todas as demonstrações em Jerusalém e na Cisjordânia contra o ataque foram organizadas por ativistas das bases, sem nenhuma liderança ou apoio das lideranças do Fatah, diz Hatem Abdel Qader, membro do Fatah. E mais: ”O Hamas obteve legitimidade e simpatia internacional, e suas forças ainda controlam a faixa de Gaza”, diz Aluf Benn, um dos principais analistas do Haaretz. Na El Jazeera, Mouin Rabbani, um articulista do Middle East Report, diz que a inércia de Abbas frente ao que aconteceu vai agravar as críticas que ele já vinha sofrendo de que todas as suas estratégias e cada uma delas fracassou desde que ele assumiu a presidência da ANP em 2004. Abbas pode não sobreviver, ele diz.

O El Fatah culpa o Hamas pela tragédia: “Com os foguetes eles deram a Israel um pretexto para a guerra”, disse ao Der Spiegel o ex-chefe do El Fatah, Muhamed Dahlan. “O Hamas é uma das piores organizações da região. As pessoas têm medo dos extremistas islâmicos e ninguém em Gaza ousa fazer qualquer crítica”, caso o façam correm o risco de prisão e até mesmo de morte”, ele diz.” O Hamas usa slogans e explora o sangue derramado em Gaza para encobrir seus projetos separatistas”, acusou o dirigente do Fatah Yasser Abed Rabbo, numa coletiva à imprensa. Ele disse que a Autoridade Nacional Palestina não permitirá que o Hamas faça de Gaza uma entidade separatista.

Já começou a luta entre Hamas e Fatah pelo controle das gigantescas somas de dinheiro a serem canalizadas para a reconstrução de Gaza. De Damasco, onde ficou a salvo das bombas israelenses, o líder do Hamas Khaled Meshal vangloriou-se do que chamou de “inequívoca vitória do Hamas”, reafirmou o objetivo de libertar todos os territórios palestinos e impôs como condição para a reconciliação com o Fatah de Mahmoud Abbas, a libertação de militantes do Hamas presos pela Autoridade Nacional Palestina. Outro dirigente do Hamas, Sami Khater disse que o Fatah não é confiável e que as donativos internacionais e de países árabes para reconstrução de Gaza não podem passar pelas mãos do Fatah.

Se o Hamas derrotar o Fatah, conquistando a liderança da representação palestina, não precisará mais do diferencial do jihad, e poderá mudar sua Carta, como fez a OLP. A pergunta é se ao provocar a “fera” israelense, com o único objetivo de se afirmar, mesmo às custas de 700 crianças mulheres e idosos mortos, o Hamas também não tem um balanço de consciência pendente.


Bernardo Kucinski, jornalista e professor da Universidade de São Paulo, é colaborador da Carta Maior e autor, entre outros, de “A síndrome da antena parabólica: ética no jornalismo brasileiro” (1996) e “As Cartas Ácidas da campanha de Lula de 1998” (2000).

Recado do FSM ao mundo: Unidade, Integração e Socialismo

Na atividade mais importante de todas as edições do Fórum Social Mundial, os presidentes da Venezuela, Bolívia, Equador, Paraguai e Brasil debateram na noite de quinta-feira (29) a América Latina e os desafios da crise econômica internacional fazendo o mais contundente contraponto da história do FSM à realização da reunião de Davos. Os presidentes fizeram um chamado à unidade e integração da América Latina para fortalecer os países diante da crise.

De Belém, Renata Mielli



Falou-se em “sepultar o capitalismo para que o capitalismo não sepulte o mundo”, e na necessidade de se construir o socialismo do século 21. Os países ricos foram culpados pela crise e seus representantes reunidos em Davos foram chamados de “moribundos”. No FSM, neste dia 29, os presidentes deram o recado: ''Um outro mundo é possível, necessário e está nascendo hoje na América Latina”.


O sentido do encontro


A governadora do Pará, Ana Júlia Carepa iniciou a atividade registrando que aquele era um momento histórico. “Todos os olhos de quem acredita que um outro mundo é possível estão voltados para cá, porque a presença desses presidentes é a demonstração de que construir esse novo mundo é possível. Essa é a vitória da democracia, esse momento enche o nosso coração de esperança porque nós estamos escrevendo um novo caminho”. E, de fato, a conferência, que reuniu mais de 10 mil pessoas em Belém, entra para a história como o evento mais importante de todas as edições do Fórum Social Mundial.


O FSM, que nasceu em 2001 para ser um contraponto à reunião de Davos, na Suiça, ao reunir cinco presidentes de países importantes da América Latina, nesta 9ª edição, demarca um importante campo político com o modelo econômico mundial vigente. Mostra que uma alternativa não apenas é viável, mas já está sendo construída através das experiências latino-americanas.


O mediador do encontro dos presidentes, Cândido Grzybowski, diretor-geral do Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas), que ao lado do Instituto Paulo Freire e da CUT co-promoveu a atividade, iniciou afirmando que “queremos abrir pontos de diálogo com governantes, inclusive com Barack Obama, se for o caso; mas com aqueles que neste momento estão em Davos nós não temos nada para trocar, e sim cobrar porque eles são os artífices da crise''. E apontou o objetivo do encontro dos presidentes: “É um esforço mútuo de indagar questões e mapear convergência e divergências”.


Sepultura para o capitalismo


Evo Morales foi o primeiro presidente a se dirigir ao público, onde havia índios de várias regiões da Pan-Amazônia, participantes de mais de cem países do mundo, que representavam movimentos sociais e organizações não-governamentais. Ele afirmou que “esse é o início de uma série de encontros dos presidentes antineoliberais contra o capitalismo”.


Morales falou do referendo na Bolívia, que aprovou a nova Constituição por 61,5% dos votos válidos. “No último domingo, abrimos uma nova página em nosso país para que nunca mais privatizemos nossos recursos naturais, e para reconhecermos os direitos das populações originárias numa demonstração da consciência do povo boliviano”.


Ao referir-se à crise, que é parte da crise do capitalismo, o presidente da Bolívia foi taxativo: “Se nós – o povo do mundo – não conseguirmos sepultar o capitalismo, o capitalismo vai sepultar o mundo”.


Ele propôs a criação de quatro campanhas para combater a crise, fortalecer a economia e a soberania das nações pobres. Uma campanha mundial pela paz, que julgue os responsáveis por guerras nos tribunais de justiça e que acabe com o direito de veto no Conselho de Segurança da ONU, “porque não é possível que um país tenha mais direito que 160 nações”. A luta por uma nova ordem econômica e social de justiça e desenvolvimento, que reforme os organismos internacionais e que paute o mundo por indicadores de distribuição de riqueza seria a segunda campanha.



Ele defendeu ainda uma campanha para salvar o planeta, alterando os padrões de consumo da sociedade; e outra campanha que valorize a humanidade através da diversidade e respeito cultural. “Só uma humanidade que valoriza a si mesma pode sepultar o capitalismo”.


Os moribundos de Davos


O presidente do Equador, Rafael Correa, foi duro ao se referir ao Fórum Econômico Mundial. “Os representantes do capitalismo estão reunidos neste momento em Davos para traçar as linhas de ação do mundo frente à crise. Eles que são os responsáveis por essa crise querem nos dar lições”, ironizou e em seguida, não poupou palavras: “Lá estão reunidos os moribundos”.


Correa, que é economista, caracterizou esta crise como sendo uma crise de todo o sistema capitalista, “uma forma imoral de acumulação de riquezas que levou os países à miséria”. Ele denunciou o fato de os defensores da primazia do capital financeiro sobre o capital produtivo recorrerem agora ao Estado para salvar suas economias.


“No Equador temos resistido ao neoliberalismo, estamos pondo fim à noite neoliberal. É hora de algo novo e felizmente esse novo está surgindo aqui na América Latina”, disse Correa ao iniciar uma exposição sobre o nascimento do socialismo do século 21, que exige uma ação conjunta e coletiva e atribui um papel importante ao Estado.


“Não somos estatistas, mas o que é necessário é uma ação coletiva para superar as dificuldades do povo e o Estado pode ser o estruturador dessas ações”, e informou que “no Equador temos um Plano Nacional de Desenvolvimento que articula todas as políticas públicas do Estado para impulsionar o desenvolvimento da economia e a diminuição das misérias e desigualdades sociais”.


Socialismo do século 21


Rafael Correa conclamou a todos para contestarem a idéia de que o socialismo é um regime incompetente. “Socialismo é muito mais justiça, mas é muito mais eficiência também”. Mas alertou: “Temos que ter os olhos bem abertos e os pés na terra ao aplicar o socialismo para não cometermos erros que outras experiências cometeram”.


Correa avaliou como um desses erros o fato de que o socialismo tradicional apresentou apenas uma nova forma de produção e desenvolvimento mais acelerados e com mais justiça social, mas baseada no mesmo conceito de consumo do capitalismo, o consumo de massa. “O socialismo do século 21 vai propor um novo modelo de desenvolvimento, estamos com a oportunidade de criar algo novo e melhor”.


O presidente equatoriano apontou como principal caminho para enfrentar a crise acelerar a integração da América Latina. “Como nunca antes temos que estar unidos, buscar intercâmbio para criar políticas conjuntas de infra-estrutura energética, de saúde, de educação. Temos que acelerar o Banco do Sul, que pode servir para nos proteger um pouco da crise . Só com a organização dos Estados Latino-americanos vamos fazer frente ao capitalismo.


Concluiu dizendo que é preciso ter cuidado com a crise, porque ao mesmo tempo que ela pode gerar oportunidades, “pode também ser usada para desestabilizar os nosso governos”. Ao se despedir do público de Belém, usou a saudação imortalizada por Che “Até a vitória, sempre!''.


A peste econômica


Usando uma retórica mais poética e cheia de simbolismos, o presidente do Paraguai, Fernando Lugo, saudou o Fórum dizendo que via com muita alegria “esse espírito humanista e a solidariedade inteligente para enfrentar os nossos desafios com dureza e ternura. Estamos ensinando para todos que existe uma alternativa, que sim é possível transformar o planeta. Os que perguntam para que serve o FSM não aprenderam a olhar ao seu redor – há mudanças na América Latina e a esperança de que haja mudanças no norte também”, disse, referindo-se indiretamente à eleição de Barack Obama.


Lugo nomeou a crise econômica como resultado da ação inconseqüente dos países ricos, o neoliberalismo, “a peste econômica que atingiu a América latina nos anos 90”. Para ele, uma das formas de enfrentar esse momento é a ação conjunta e soberana das nações latino-americanas. “Nós temos os Andes, a Amazônia, temos a maior fonte de energia renovável do mundo, um banco diversificado de plantas medicinais, então, o que nos falta? Falta muito e pouco. Falta usar esses recursos para fortalecer nossas economias”, avaliou.


Denunciou os crimes cometidos no Oriente Médio. “Como é possível, nesse momento em que a humanidade domina a tecnologia, haverespaço para as mortes mais cruéis?”, indagou, referindo-se aos ataques de Israel à faixa de Gaza. “Não podemos ser apenas observadores diante a ameaça planetária de guerra”.


“As mudanças já se vêem, já se respiram nos ares do Fórum Social Mundial”, afirmou e, citando o cantor brasileiro Geraldo Vandré, conclamou a todos para que continuemos “caminhando e cantanto e seguindo a canção – aprendendo e ensinando uma nova lição”.


Vamos apurar nossa unidade


Num dos discursos mais rápidos que já proferiu, Hugo Chávez usou cerca de 15 minutos para expressar sua crença de que “a cada ano que passa o evento político mais importante do mundo é o Fórum Social Mundial”. Para Chávez a criação do FSM foi muito oportuna porque aconteceu num momento de efervescência política no continente.


“A América Latina foi o laboratório do neoliberalismo que, como disse Eduardo Galeano, arrasou nosso continente. Assim como a América Latina recebeu a maior dose de veneno neoliberal, foi também onde brotaram com mais força as mudanças que vão transformar o nosso planeta. Outro mundo é possível, necessário e está nascendo hoje na América Latina”, afirmou com a contundência que lhe é peculiar o presidente da Venezuela.


Chávez disse que 2009 vai ser duro para o mundo, “segundo a OIT – Organização Internacional do Trabalho, se perderão 50 milhões de postos de trabalho e a fome deverá crescer e chegar à casa de 1 bilhão de pessoas. Não podemos esperar nada dos outros, mas de nós mesmo”.


O líder bolivariano fez um apelo pelo aprofundamento da unidade. “Diante dessa crise temos que apurar nossa unidade, com o Banco do Sul, com o fortalecimento das nossas empresas energéticas, com estratégias de articulação de um projeto latino-americano. Nesse projeto unitário está o coração do novo continente”, avaliou.


Para Chávez, ''o socialismo é o único caminho, porém ele não pode ser cópia, tem que ser criação. Nós somos presidentes graças ao despertar dos nossos povos, e por isso vocês têm que continuar lutando”.


Mudanças em curso


Lula optou pela informalidade e deixou de lado o discurso que iria ler. Começou fazendo um pedido: “Guardem esta fotografia porque hoje a gente pode até reclamar dos presidentes que nós temos, mas até bem pouco tempo os que ousavam discordar de seus presidentes eram perseguidos e mortos, muitos jovens pegaram em armas para lutar pela democracia e hoje nós estamos aqui fazendo o que eles sonharam. O mundo mudou tanto que era impossível dizer que um bispo da Igreja Católica seria presidente do Paraguai, que um jovem economista ia chegar à presidência do Equador, impossível pensar que um índio com cara de índio e jeito de índio chegasse à presidência da Bolívia e, aqui no Brasil, era impossível pensar que um torneiro-mecânico seria presidente. Mas as coisas não param por aqui, quem podia pensar, que teórico poderia prever, que o país do apartheid que matou Martin Luther King, ia eleger um negro para presidente dos Estados Unidos?”, disse Lula.


Ao falar da crise, ele recordou como até bem pouco tempo os ricos e “yuppies” norte-americanos ficavam ditando regras para os países mais pobres. “Parecia que eles eram infalíveis e nós os incompetentes”, ironizou; e lembrou que agora eles estão calados porque a crise eclodiu justamente lá.


A crise do “deus mercado”


“A crise nasceu porque eles venderam a idéia de que o Estado não servia para nada e o “deus mercado”, que tudo pode e é soberano, podia tudo. Só que esse deus mercado quebrou por irresponsabilidade deles. Agora eu quero ver o FMI ir dizer para o Obama como é que eles vão consertar a crise que eles criaram”, falou, sob fortes aplausos.


Lula listou as medidas que os organismos internacionais impunham aos países em desenvolvimento: “Eles nos obrigaram a fazer ajuste fiscal, mandar trabalhadores embora, reduzir o Estado e os serviços sociais; e agora, quando eles entraram em crise, qual foi o deus a quem eles pediram socorro? Ao Estado que já injetou milhões de dólares para salvar empresas mundo afora”.


O presidente alertou que a crise é grave e que ainda não se conhece o fundo dela, mas foi contundente ao dizer que os países em desenvolvimento estão em melhores condições de enfrentá-la do que os ricos. Disse que já passou da hora de se discutir discutir o controle do mercado financeiro e foi taxativo: “Aqui o povo pobre não será o pagador dessa crise”.

Mensagem de Dom Helder Camara

Por Frei Beto

De: HelderCamara@ceu.com

Para: amigos e amigas

Queridos: estivesse entre vocês, a 7 de fevereiro comemoraria 100 anos de idade. Quis o bom Deus, entretanto, antecipar-me a glória de desfrutar Sua visão beatífica. Aliás, o Céu nada tem daquela imagem idílica que se faz na Terra. Nada de anjos harpistas e nuvens cor-de-rosa, embora a música de Bach tenha muita audiência.

Entrar na intimidade das três Pessoas divinas é viver em estado permanente de paixão. Arrebatado por tanto amor, o coração experimenta uma felicidade indescritível.

A propósito, outro dia, Buda, de quem sou vizinho, me contou esta parábola que bem traduz o caminho da felicidade: numa feira da Índia, entre tantos restos de frutas e legumes, uma mulher fitava detidamente o chão. Viram que procurava algo. Um e outro perguntaram o quê. "Uma agulha". Não deram importância. Porém, quando ela acrescentou que se tratava de uma agulha de ouro, multiplicou o número dos que a auxiliavam na busca.

Súbito, um deles perguntou: "A senhora não tem ideia de que lado da feira a perdeu?" "Não foi aqui na feira", respondeu a mulher, "perdi-a em casa". Todos a olharam indignados. "Em casa?! E vem procurar aqui fora?" A mulher fitou-os e retrucou: "Sim, como vocês procuram a felicidade nas coisas exteriores, mesmo sabendo que ela se encontra na vida interior".

O Céu é terno, o que não impede que experimentemos indignações. Jesus não fez a fome e a sede de justiça figurar entre as bem-aventuranças? Quando olho daqui para a Igreja Católica confesso que sinto, não frustração, mas uma ponta de tristeza. O papa Bento XVI não transmite alegria e esperança. Faltam-lhe o profetismo de João XXIII e a empatia de João Paulo II.

Padres cantores atraem mais discípulos do que aqueles que se dedicam aos pobres, aos lavradores sem-terra, às crianças de rua, aos dependentes químicos. Nas showmissas os templos ficam superlotados, enquanto nos seminários o ensino de filosofia e teologia costuma ser superficial.

A vida de oração não é estimulada, muitos buscam o sacerdócio para obter prestígio social e, por vezes, o moralismo predomina sobre a tolerância, o triunfalismo supera o espírito ecumênico. Até quando homossexuais serão discriminados por quem se considera discípulo de Jesus?

Alegra-me, porém, saber que as Comunidades Eclesiais de Base estão vivas e se preparam para realizar o seu 12o encontro intereclesial, em Rondônia, no próximo julho. Dou graças a Deus ao constatar que o CEBI - Centro de Estudos Bíblicos - conta com mais de 100 mil núcleos espalhados pelo Brasil, integrados por gente simples interessada em ler a Bíblia pela ótica libertadora.

Preocupa-me, entretanto, a polêmica entre os irmãos Boff. Tanto Leonardo quanto Clodovis são teólogos de sólida formação. Não considero justa a acusação feita por Clodovis de que a Teologia da Libertação teria priorizado o pobre no lugar do Cristo. O próprio Evangelho nos mostra Cristo identificado com os pobres, como ocorre na metáfora da salvação em Mateus 25, 31-46.

Francisco de Assis, com quem sempre me entretenho em bons papos, lembra que sem referência ao pobre, sacramento vivo de Deus, Cristo corre o risco de virar um mero conceito devocional legitimador de um clericalismo que nada tem de evangélico ou profético.

Tenho dito a são Pedro que sonho com uma Igreja em que o celibato seja facultativo para os sacerdotes e as mulheres possam celebrar missa. Uma Igreja livre das amarras do capitalismo, e na qual os oprimidos se sintam em casa, alentados na busca de justiça e paz.

Quanto ao mundo, lamento que a fome, por cuja erradicação tanto lutei, ainda perdure, ameaçando a vida de 950 milhões de pessoas e causando a morte de cerca de 23 mil pessoas por dia, a maioria crianças.

Por que tantos gastos em formas de ceifar vidas, como armamentos, e investimentos que degradam o meio ambiente, como pesticidas, desmatamentos irresponsáveis e cultivo de transgênicos? Por que tão poucos recursos para tornar o alimento - dom de Deus - acessível à mesa de todos os humanos?

Ao comemorarem meu centenário, lembrem-se dos princípios e objetivos que nortearam a minha vida. Malgrado calúnias e perseguições, vivi 91 anos felizes, pois jamais esqueci do que disse meu pai quando comuniquei a ele minha opção pela vida sacerdotal: "Filho, egoísmo e sacerdócio não podem andar juntos".

[Autor, em parceria com Leonardo Boff, de "Mística e Espiritualidade" (Garamond), entre outros livros].


Missa em Fortaleza comemora centenário de nascimento de Dom Helder

Este ano é marcado pelo centenário de nascimento de Dom Helder Camara. É pensando em homenagear a pessoa e as obras do Arcebispo Emérito de Recife e Olinda que, no próximo dia 7 de fevereiro, às 19h, a Arquidiocese de Fortaleza realizará uma Celebração Eucarística em comemoração aos 100 anos de nascimento do Dom. A missa acontecerá na paróquia de Santo Afonso, localizada no bairro da Parquelândia.

Segundo o pároco, padre Geovane Saraiva, a missa será para comemorar o aniversário de nascimento do arcebispo e contará com homenagens e o lançamento do livro "O Peregrino da Paz", organizado por ele e pelo professor José Cajuaz. O pároco afirma que a ideia é mostrar a importância que o arcebispo teve para o mundo, como "Peregrino da Paz", e como figura predestinada a lutar pelas grandes causas. Além disso, acrescenta que o centenário ainda pretende divulgar aos jovens quem foi o arcebispo: "os jovens hoje são carentes de referenciais e não conhecem Dom Helder", afirma.

Para relembrar a pessoa e as obras de Dom Helder e organizar as comemorações do centenário, foi criada uma Comissão Cívica do Centenário de Dom Helder Camara. O grupo surgiu a partir da mobilização de pessoas que não se contentaram ao perceber que o nome de Dom Helder estava sendo esquecido pela população da capital cearense: "Ela foi criada para dar dicas para a cidade de Fortaleza reverenciar um dos seus filhos que estava com o nome esquecido", explica Geilson Cajui, articulador geral da Comissão.

De acordo com Geilson, o grupo é formado por pessoas que admiram o trabalho do arcebispo: "A Comissão é formada por pessoas apaixonadas pelas obras de Dom Helder Camara", comenta. Ele informa que a intenção é fazer com que a população relembre e homenageie o Dom. Segundo o articulador, antes, Fortaleza não tinha nenhum local com o nome do arcebispo, mas, agora, já possui uma escola municipal e outra estadual, além de uma estátua na praça da paróquia de Santo Afonso.

Para padre Geovane, ainda há, na cidade de Fortaleza, uma resistência a Dom Helder, mas tal situação está melhorando, pois o trabalho da Comissão e de outros movimentos ajuda a pressionar as autoridades e os demais cidadãos a reconhecer a importância de Dom Helder. "A nossa parte nós estamos fazendo", desabafa.

Contato: (85) 3223.8785

As matérias do projeto "Ações pela Vida" são produzidas com o apoio do Fundo Nacional de Solidariedade da CF 2008.

Fonte: Adital


terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Fórum Social Mundial 2009

Por Frei Beto

Belém, PA, abrigará, de 27 de janeiro e 1o de fevereiro, a nova edição do Fórum Social Mundial (FSM). São esperados cerca de 120 mil participantes. Três grandes temas deverão dominar os debates: a preservação ambiental, sobretudo por ter como cenário a Amazônia, onde o desmatamento e a emissão de gás carbônico têm crescido; a crise do capitalismo globalizado; a guerra no Oriente Médio.

Entidades participantes convidaram os presidentes do Brasil, da Venezuela, do Equador, da Bolívia e do Paraguai. Se comparecerem, será em caráter pessoal.

Reza a Carta de Princípios do FSM que se trata de um evento destinado aos movimentos da sociedade civil contrários ao neoliberalismo e a qualquer forma de imperialismo, e comprometidos com a construção de uma sociedade planetária orientada a uma relação de sustentabilidade entre os seres humanos e a Terra.

Ao almejarem "o outro mundo possível", os participantes se empenham em conquistar uma globalização solidária que respeite os direitos humanos universais e o meio ambiente, apoiada em sistemas e instituições democráticas a serviço da justiça social, da igualdade e da soberania dos povos.

Tribuna livre e apartidária, não governamental nem confessional, o FSM não tem caráter deliberativo. Embora funcione como instância articuladora, não nutre a pretensão de ser um espaço de representatividade da sociedade civil mundial. Nele há plena diversidade de gêneros, etnias, culturas e gerações.

Espera-se que, do debate democrático no FSM, surjam propostas para resolver os problemas de exclusão e desigualdade social que o processo de globalização capitalista, com suas dimensões racistas, sexistas e destruidoras da natureza, impõe à maioria da humanidade.

As três primeiras edições do FSM -realizadas em Porto Alegre, em 2001, 2002 e 2003-, foram organizadas por um comitê integrado por oito entidades brasileiras: Abong, Attac, Comissão Brasileira de Justiça e Paz, Cives, CUT, Ibase, MST, e Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.

A quarta edição ocorreu em Mumbai (Índia), em janeiro de 2004. A quinta retornou à capital gaúcha, em janeiro de 2005, e funcionou à base de oito grupos de trabalho: Espaços, Economia Popular Solidária, Meio Ambiente e Sustentabilidade, Cultura, Tradução, Comunicação, Mobilização e Software Livre.

O sexto FSM ocorreu, de forma descentralizada, em três cidades: Bamako (Mali, África), em janeiro de 2006; Caracas (Venezuela, América), também em janeiro do mesmo ano, e Karachi (Paquistão, Ásia), em março de 2006. A sétima edição do FSM teve como palco Nairóbi, no Quênia, em janeiro de 2007.

Os interessados em participar, à longa distância, do Fórum de Belém, devem acessar: http://openfsm.net/projects/fsm2009interconexoes. Para quem pretende ir a Belém: http://www.fsm2009amazonia.org.br/como-participar

No evento, o filósofo e cientista político Michael Lowy e eu abordaremos o tema "Ecossocialismo: espiritualidade e sustentabilidade", além de participarmos de outras atividades.



Fonte: Adital

Chuvas provocam estado de alerta em municípios do Cariri

Em áreas de risco de municípios do Cariri, a natureza sinaliza que as cidades têm construções inadequadas para chuvas

Para alguns, a estação das chuvas no Cariri é um momento de alegria, fartura neste rincão de terra. Outros se detêm à preocupação, por conta das moradias e obras de alto risco, que há anos não são muitas vezes concluídas ou corrigidas, gerando prejuízos ao erário público e à sociedade.

Em Barbalha, o Canal do Riacho Seco, que teve sua construção iniciada em 2006, ainda está por ser concluído. Os moradores do bairro Nossa Senhora de Fátima, já na desembocadura da obra, quase no encontro do Riacho Seco com o Riacho do Ouro, estão apreensivos quanto às fortes chuvas. Alguns estão em estado de alerta constante. O medo é que as casas à beira da vala sejam invadidas com a água fétida, cheia de lixo e areia na porta de casa.


Moradores da beira do Riacho Seco, em Barbalha, se arriscam na travessia do canal, enquanto a obra não é concluída. No final do trecho, o lixo se acumula e há possibilidade das casas serem invadidas pelas águas das chuvas (Foto: Elizângela Santos)

Os moradores fazem um apelo às autoridades para que a obra seja concluída o quanto antes. O que durante esse período se torna quase impossível. O máximo a ser feito, admite o secretário de Infra-Estrutura de Barbalha, Magno Coelho, é retirar o lixo e areia das áreas, o que já iniciou em toda a cidade, principalmente nos bueiros. Segundo ele, o trabalho foi emergencial por conta das chuvas.

O secretário destaca a sua preocupação em relação à obra. Disse que todas as providências estão sendo tomadas para que os trabalhos sejam concluídos. Ao longo do percurso, uma vala de quase dois metros de altura já foi coberta por uma laje de cimento. Mas o problema se agrava por conta das bocas de lobo, que não foram concluídas. A terra continua entrando na vala e resta apenas pouco mais de um metro para a água que entra com força das cabeceiras da Serra do Araripe e atravessa o Centro da cidade.

Outra grande preocupação, e risco iminente para os condutores de veículos e pedestres, se encontra a quase dois quilômetros da sede de Barbalha. A estrada que segue para o distrito de Arajara, no município, está cedendo. O trecho se encontra sem asfalto e não há espaço para a passagem de dois carros. Com a intensidade das chuvas, há forte possibilidade da estrada ficar interditada. Segundo o secretário, uma ordem de serviço está para ser assinada pelo governador do Estado para a construção de uma ponte no local e recuperação de vários trechos da estrada.

O secretário prevê o início das obras ainda em fevereiro. Mas em todo o município também vem sendo feito um levantamento completo para recuperação de ruas e calçamentos. A limpeza tem sido abrangente, já que a zona rural foi incorporada para que fosse feita a limpeza e melhoria de algumas áreas para facilitar o escoamento das águas.

Em Crato, o Canal do Rio Grangeiro, que atravessa toda a cidade, coloca em alerta os moradores, principalmente das margens. A água que desce com toda força do alto da serra, muitas vezes vem com um poder de destruição surpreendente. Uma das moradoras, Selma Geraldo Vilar, 70anos, há 35 anos mora à beira do canal. A avenida separa a sua casa dos paredões de cimento.

Providências urgentes

“Enquanto o clima de inverno dá tranqüilidade para muitas pessoas, para nós é um momento de preocupação. Ficamos, principalmente durante o mês de janeiro, praticamente sem dormir à noite. Quando dá uma neblina, vamos tomando todas as providências imediatas”, diz a moradora. As portas têm proteções especiais, para as casas não serem inundadas pela chuva.

Em anos anteriores, as cheias do canal — por conta de uma obra considerada pela Prefeitura um erro de engenharia que precisa ser corrigido — já provocaram vítimas fatais. No início da década, um morador da cidade chegou a ser tragado, junto com uma camionete Hylux, para dentro do canal e foi encontrado sem vida alguns quilômetros depois.

A recuperação de todo o canal, segundo o secretário de Infra-Estrutura do Crato, Jéferson Felício Júnior, pode custar até cerca de R$ 20 milhões. Uma obra que só pode ser feita em parceria com o Governo Federal, segundo admite o prefeito, Samuel Araripe.

Os prejuízos causados com trechos da obra destruídos são incalculáveis ao longo dos anos. E vários deles ainda necessitam passar por melhorias e serem fortalecidos para que não cheguem a arrebentar novamente. Tanto que durante esta semana, conforme o Felício Júnior, foi encaminhado ao Ministério da Integração Nacional projeto solicitando recursos da ordem de R$ 1,25 milhões para recuperação de vários trechos, onde o cimento já foi levado e a parte inferior está oca.

O secretário destaca que nos países desenvolvidos, como o Japão, atualmente não se faz mais canais de cimento. “É um tipo de obra ultrapassado”, diz ele. A visão dá Engenharia é dar uma adequação mais natural à área, com pedras e plantas, sem causar tantos prejuízos à natureza, além de proporcionar uma melhor paisagem — o que não aconteceu com o Canal em Crato. O que poderia ser um dos cartões postais da cidade, virou um grande paredão de cimento, que não tem como amortecer a passagem da água que vem com toda força do alto da Serra do Araripe.

Como é ter que conviver em áreas de risco?

José Marcos de Sousa
Pedreiro

Estamos todos com medo, mas não temos para onde ir. A água do riacho pode entrar nas casas. É o nosso temor

Vicente Alencar de Sousa
Servente de pedreiro

É um risco, mas não temos outro lugar para ficar. O medo é de uma chuva forte. Estamos na parte mais crítica

Selma Geraldo Vilar
Aposentada

Aqui é um sofrimento. No mês de janeiro, ficamos de alerta noite e dia. São 35 anos e não dá para se tranqüilizar

Elizângela Santos
Repórter

Mais informações:

Secretaria de Infra-Estrutura de Barbalha
Rua Miguel de Freitas, 184
Bairro Cirolândia
(88) 2532.0422

Fonte: Diário do Nordeste

sábado, 24 de janeiro de 2009

Campus Party Brasil 2009


Uma porta para o conhecimento digital

Campus Party é considerado o maior evento de inovação tecnológica e entretenimento eletrônico em rede do mundo. Um encontro anual realizado desde 1997 na Espanha, que reúne durante sete dias milhares de participantes com seus próprios computadores procedentes de diversos países, com a finalidade de compartilhar curiosidades, trocar experiências e realizar todo tipo de atividades relacionadas a tecnologia, a cultura digital e ao entretenimento em rede.

Pela Campus Party já passaram convidados de destaque como o astronauta Neil Armstrong, primeiro homem a pisar na Lua, em 1969, Eveline Herfkens, coordenadora geral da Campanha dos Objetivos do Milênio das Nações Unidas, Stephen Hawking, o grande físico britânico que, através de um vídeo, inaugurou a edição do evento no seu décimo aniversário.

Os participantes da Campus Party mudam-se com seus computadores, malas e barracas para dentro das instalações do evento. Lá encontram uma completa infra-estrutura de serviços, lazer, higiene, segurança, alimentação e, principalmente, tecnologia. Durante uma semana a Campus Party transforma-se na casa de todos.

Participam do evento estudantes, professores, cientistas, jornalistas, pesquisadores, artistas, empresários e curiosos. Todos buscam as últimas novidades tecnológicas, a troca livre de conteúdos e o compartilhamento de experiências ligadas ao mundo digital.

É um público composto por líderes de comunidades on line extremamente ativas na sociedade em rede, com enorme poder de formar opinião e criar tendências. Um público de vanguarda, trendsetter, que antecipa o futuro da nova economia e os caminhos da tecnologia da informação.

Após 12 edições na Espanha a Campus Party iniciou em 2008 seu processo de internacionalização. E o Brasil foi o primeiro País escolhido para receber a maior festa mundial da internet. Também em 2008 foram realizadas edições do evento na Colômbia e em El Salvador, dentro da Cúpula Ibero-americana de Chefes de Estado. Em 2009 e evento pretende se expandir por diversos países da América Latina.

Campus Party Brasil
De 19 a 25/1/2009
Centro de Exposições Imigrantes
Rodovia dos Imigrantes, km 1,5
São Paulo – SP

Maiores Imformações: www.campus-party.com.br

Campus Party discute o papel das lan houses na inclusão social

Uma das palestras do Encontro de Lan Houses foi apresentada por Nelson Fujimoto, assessor especial do Gabinete Pessoal do Presidente da República;
Assuntos como a ilegalidade dos estabelecimentos e a mudança de perfil do uso da internet também foram abordados

O amazonense João Orismar de Azevedo veio de Manaus para São Paulo para participar do Encontro de Lan Houses, que aconteceu nessa sexta-feira, dia 23, na área de Inclusão Social da Campus Party Brasil 2009. João e mais 65 proprietários de lan houses trocaram experiências e ouviram as palestras de Nelson Fujimoto, assessor especial do Gabinete Pessoal do Presidente da República do Gabinete da Presidência da República, e Luiz Fernando Marrey Moncau, advogado e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro.

Um dos assuntos mais discutidos pelos participantes durante o encontro foi a grande explosão do número de lan houses e cyber cafés, a legislação para esse tipo de empreendimento e a necessidade de reconhecimento, tanto por parte do governo quanto por parte da população, do grande poder de inclusão digital e cultural que as lans estão assumindo.

“A lan house é uma importante e fundamental ferramenta para acesso à cultura e está revolucionando a inclusão e alfabetização digital”, comentou Moncau. Para Fujimoto, “a lan house tem a capacidade de ampliar as possibilidades de inclusão digital. Precisamos trabalhar esse aspecto de entretenimento e difusão cultural”.

Pesquisa: as lan houses em números

Para confirmar e ressaltar ainda mais o grande poder de inclusão digital que esses centros de acesso têm, Moncau, pesquisador representante da Fundação Getúlio Vargas, adiantou alguns dados de uma pesquisa ainda em andamento que procura entender o fenômeno das lans. Em 2007, o acesso à internet a partir de lan houses ultrapassou o acesso doméstico: 49% contra 40% (Fonte: CGI – Comitê Gestor de Internet no Brasil).

Ainda segundo dados levantados pelo mesmo estudo, há mais lan houses (90 mil) do que livrarias (2.676) ou salas de cinema (2.300) no País. Entre elas, 100 estão na Favela da Rocinha, 30 na Cidade de Deus e 150 no Conjunto de Favelas da Maré, todas no Rio de Janeiro.

Moncau apresentou também alguns dispositivos da legislação de alguns municípios brasileiros, caso do Rio de Janeiro e de São Paulo, que dificultam o trabalho dos empreendedores da área. Fato confirmado com outro importante dado: 83% das lan houses brasileiras funcionam na informalidade. “As leis precisam tratar as lans a partir do seu potencial inclusivo e benéfico. A formalização desses estabelecimentos pode gerar uma onda de formalização para outros negócios e os custos da formalidade podem ser menores que os da informalidade”, concluiu.

Depois de uma hora ouvindo atentamente aos palestrantes e colegas, João Orismar acredita que a viagem até São Paulo valeu a pena. “Um encontro como esse é importante para a conscientização do governo e das pessoas. Somos criminalizados e colocados como culpados pela evasão escolar, por exemplo. Nunca veem nosso papel inclusor”, concluiu.

Recorde nacional de overclocking é quebrado na Campus Party

A equipe BR-OCTeam chegou a uma velocidade de processamento de 5,6 Gh




O uso do nitrogênio líquido não é para qualquer situação: o fluido pode causar o congelamento rápido do tecido vivo, a, no mínimo, -120ºC. Porém neste sábado, dia 24, os participantes da área de Modding da Campus Party Brasil 2009 precisaram de 50 litros da substância para quebrar o recorde nacional de overclocking – técnica que pretende fazer com que o computador chegue ao seu rendimento máximo, acima do estipulado pelo fabricante.

Resfriando um Intel Core 2 Duo E8400 a -106ºC, eles aumentaram a velocidade do processador de 3 Gigahertzs para 5,6 Gigahertzs e atingiram a marca de 8,6 segundos no tempo de cálculo do número Pi (π) com 1 milhão de casas decimais. As diversas tentativas de chegar a esse número levaram mais de duas horas, em um constante reinício do sistema e modificações nas configurações. No ano passado, o recorde foi de 9,2 segundos em um processador que atingiu 5 Gh.

“A partir de 4,5 Gh, a vida útil do processador já começa a diminuir, por isso recomendamos que, em situações normais, as pessoas só aumentem em 10% a velocidade. Aqui é diferente: estamos tentanto o recorde. É algo extremo. Não estamos preocupados com a durabilidade da máquina”, explica Alexandre Zilbert, integrante da equipe BR-OCTeam. No lugar de nitrogênio líquido, o resfriamento no overclocking pode ser feito com ar frio ou água. “Todo mundo pode fazer em casa, se quiser”.

O recorde mundial é de 6,5 segundos de cálculo do Pi em um processador que chegou à velocidade de 6,8Gh. “O equipamento é importado e o custo de cada tentativa é bem alto, mas a idéia é ir melhorando e quebrar mais recordes”, finaliza Zilbert. Alguém se habilita?

Fonte: Campus Party Brasil 2009

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A água (que ninguém vê) na guerra


Na guerra do momento - Israel em Gaza -, por que a mídia não fala sobre a água - um dos itens mais importantes dos conflitos no Oriente Médio? Embora Israel tenha sérios problemas com recursos hídricos, detém o controle dos suprimentos de água, tanto seus como da Palestina. Além de restringir o uso d'água, luta pela expansão do seu território para obter mais acesso e controle deste recurso natural.


"Para além das manchetes do conflito do Oriente Médio, há uma batalha pelo controle dos limitados recursos hídricos na região. Embora a disputa entre Israel e seus vizinhos se concentre no modelo terra por paz, 'há uma realidade histórica de guerras pela água' - tensões sobre as fontes do Rio Jordão, localizadas nas Colinas de Golã, precederam a Guerra dos Seis Dias". Raymond Dwek - The Guardian, [24/NOV/2002] *

A nossa sobrevivência na Terra está ameaçada. Sem alimento, o ser humano resiste até 40 dias; sem água, morre em 3 dias. Somos água! Mas, enquanto a população se multiplica e a poluição recrudesce, as fontes de água desaparecem.

Na guerra do momento - Israel em Gaza -, por que a mídia não fala sobre a água - um dos itens mais importantes dos conflitos no Oriente Médio?

Oriente Médio... uma região aonde água vale mais do que petróleo... E sempre nos passam a idéia de que lá as guerras ocorrem pela conquista das reservas de petróleo.

E a conquista das reservas de água? Em 1997, o então vice-diretor geral da UNESCO, Adnan Badran, no seminário "Águas transfronteiriças: fonte de paz e guerra" (que centrou os debates nas águas do Mar Aral, do rio Jordão, do Nilo...) disse que "a água substituirá o petróleo como principal fonte de conflitos no mundo".

Embora Israel tenha sérios problemas com recursos hídricos, detém o controle dos suprimentos de água, tanto seus como da Palestina.

Além de restringir o uso d'água, luta pela expansão do seu território para obter mais acesso e controle deste recurso natural. Ali, ele é o "dono" das:

- águas superficiais: bacia do rio Jordão (incluindo o alto Jordão e seus tributários), o mar da Galiléia, o rio Yarmuk e o baixo Jordão;

- águas subterrâneas: 2 grandes sistemas de aqüíferos: o aqüífero da Montanha (totalmente sob o solo da Cisjordânia, com uma pequena porção sob o Estado de Israel), aqüífero de Basin e o aqüífero Costeiro que se estende por quase toda faixa litorânea israelense até Gaza.

Tais águas são 'transfronteiriças', recursos naturais compartilhados. Segundo recente inventário da UNESCO, 96% das reservas de água doce mundiais estão em aqüíferos subterrâneos, compartilhados por pelo menos dois países.

Há regras internacionais para o uso dessas águas. Algumas destas obrigam Israel a fornecer água potável aos palestinos.

Mas Israel não compartilha a água; afinal, tais regras internacionais não prevêem mecanismos de coação ou coerção; é letra morta. O Tribunal Internacional de Justiça, até hoje, condenou apenas um caso relacionado com águas internacionais.

A estratégia de Israel é outra. Em 1990, o jornal Jerusalém Post publicou que "é difícil conceber qualquer solução política consistente com a sobrevivência de Israel que não envolva o completo e contínuo controle israelense da água e do sistema de esgotos, e da infra-estrutura associada, incluindo a distribuição, a rede de estradas, essencial para sua operação, manutenção e acessibilidade" (1). Palavras do ministro da agricultura israelense sobre a necessidade de Israel controlar o uso dos recursos hídricos da Cisjordânia através da ocupação daquele território.

O Acordo de Paz de Oslo de 1993, por exemplo, estipulou que os palestinos deveriam ter mais controle e acesso à água da região.

Nessa época, segundo o professor da Hebrew University, Haim Gvirtzman, dos 600 milhões de metros cúbicos de água retirados anualmente de fontes na Judéia e Samaria, os israelenses usavam quase 500 milhões, satisfazendo cerca de um terço de suas necessidades hídricas. Para ele, isso gerou um 'direito adquirido sobre a água'. Questionado sobre o acesso palestino à água, o professor respondeu:

"Israel deve somente se preocupar com um padrão mínimo de vida palestino, nada mais, o que significa suprimento de água para eles só para as necessidades urbanas. Isso chega a cerca de cinqüenta/cem milhões de metros cúbicos por ano. Israel é capaz de suportar essa perda. Portanto, não deveríamos permitir que os palestinos desenvolvessem qualquer atividade agrícola, porque tal desenvolvimento virá em prejuízo de Israel. Certamente, nunca permitiremos aos palestinos suprir as necessidades hídricas da Faixa de Gaza por meio do aqüífero montanhoso. Se purificar a água do mar é uma solução realista, então deixemos que o façam para as necessidades dos residentes da Faixa de Gaza".

E na Guerra pela Água vale tudo: os israelenses bombardeiam tanques d'água, grandes ou pequenos (muitas vezes construídos nos telhados das casas), confiscam as bombas d'água, destroem poços, proíbem que explorem novos poços e novas fontes d'água (a Cisjordânia, em 2003, contava com cerca de 250 fontes ilegais e a Faixa de Gaza, com mais de 2 mil). Israel irriga 50% das terras cultivadas, mas a agricultura na Palestina exige prévia autorização.

Então, furto de água das adutoras de Israel é comum naquela região.

A regra do jogo é esta: enquanto o palestino não tem acesso à água para beber, o israelense acostumou-se ao seu uso irrestrito.

Sendo assim, dá pra imaginar uma outra forma de divisão ou de uso compartilhado desses recursos hídricos para os próximos anos? Dá pra imaginar a sobrevivência de qualquer estado e, nesse caso, da Palestina sem o controle efetivo do acesso e da distribuição dos recursos hídricos que necessita?

Botar a mão na água é coisa antiga. Britânicos e franceses no Oriente Médio definiram as fronteiras (em especial da Palestina) de olho nas águas da bacia do rio Jordão.

Desde 1948, Israel prioriza projetos, inclusive bélicos, para garantir o controle de água na região. Dentre estes:

- a construção do Aqueduto Nacional (National Water Carrier);

- em 1967, anexou os territórios palestinos de Gaza e Cisjordânia e tomou da Síria as Colinas do Golã, ricos em fontes de água, para controlar os afluentes do Rio Jordão. Sobre esta guerra, Ariel Sharon falou que a idéia surgiu em 1964, quando Israel decidiu controlar o suprimento d'água;

- em 2002, a construção o 'muro de segurança' viabilizou o controle israelense da quase totalidade do aqüífero de Basin, um dos três maiores da Cisjordânia, que fornece 362 milhões de metros cúbicos de água por ano. Segundo Noam Chomsky, "o Muro já abarcou algumas das terras mais férteis do lado oriental. E, o que é crucial, estende o controle de Israel sobre recursos hídrico críticos, dos quais Israel e seus assentados podem apropriar-se como bem entenderem..." (2). Antes do muro, ele já fornecia metade da água para os assentamentos israelenses. Com a destruição de 996 quilômetros de tubulação de água, agora falta água para beber à população palestina do entorno do muro;

- antes de devolver (simbolicamente) a Faixa de Gaza, Israel destruiu os recursos hídricos da região. E, até hoje, não há infra-estrutura hídrica nas regiões palestinas.

Quantos falam a respeito disso?

Em 2003, na 3ª Conferência Mundial sobre Água, em Kyoto, Mikhail Gorbachev bateu na tecla dos conflitos mundiais pela água: contabilizou, na época, 21 conflitos armados que objetivavam apropriação de mais fontes de água; destes, 18 ocorreram em Israel.

Gestão conjunta, consumo igualitário de água, ética e consenso na água - palavras bonitas no papel, nas mesas de negociação, na mídia. Na prática, é utopia.

O que a ONU e os donos do planeta estão esperando para exigir que Israel cumpra as regras internacionais sobre águas mesmo que estas contidas em convenções, acordos, declarações (e outras abobrinhas)?

Quem vai ter coragem de criar regras claras e objetivas para punir a violação dos direitos dos povos e nações à sua soberania sobre seus recursos e riquezas naturais?

* Ver http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/internacional/
2002/11/23/jorint20021123004.html


(1) Do livro de Noam Chomsky: Novas e Velhas Ordens Mundiais, São Paulo, Ed. Scritta, 1996.

(2) Ver http://www.galizacig.com/actualidade/200403/
portoalegre2003_muro_humilhacao_e_roubo.htm


(*) Ana Echevenguá, advogada ambientalista, coordenadora do programa Eco&Ação, presidente da ong Ambiental Acqua Bios e da Academia Livre das Águas, e-mail:ana@ecoeacao.com.br, website: www.ecoeacao.com.br

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Funceme prevê chuvas dentro da normalidade


Mesmo anunciando probabilidades, a Funceme realizará novos estudos para melhor definir as previsões pluviométricas

Fortaleza. Sinônimo de folia carnavalesca, fevereiro não se resume apenas em festa, afinal, o mês também marca o início da estação de inverno no Ceará. De acordo com as previsões meteorológicas da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), a expectativa é de que nos próximos quatro meses, as chuvas estejam dentro da normalidade.

“Este ano, teremos uma quadra bem irregular no Estado. Em relação a 2008, poderemos ter menos chuvas”, garantiu, ontem, o gerente do Departamento de Meteorologia da Funceme, David Ferran, no XI Workshop Internacional de Avaliação Climática para o Semi-Árido, em Fortaleza.

Durante a estação de chuva do ano passado, foram registrados cerca de 791mm em todo o Estado. O cálculo dos especialistas apontava para um período de altos índices pluviométricos. E assim foi. 2008 entrou para a lista dos dez anos acima da média histórica, e o Cariri foi uma das regiões mais beneficiadas pelas águas. David Ferran relembra que a região surpreendeu por se destacar como “bem acima da média”.

Mas, quanto a este ano, há um bom motivo para o quadro chuvoso mudar. Os estudos climáticos identificam que, apesar do Oceano Pacífico estar frio, propiciando a formação de nuvens (fenômeno “La Ninã”), a diferença de temperaturas no Atlântico Norte e Sul dificulta a ocorrência das chuvas.

Apesar de boa expectativa para o ano, não se pode prever os rumos da agricultura

Como o tempo muda constantemente, a Funceme ainda pretende discutir sobre o assunto para ter cada vez mais certeza sobre as probabilidades definidas. “É importante lembrar que nosso trabalho se fundamenta em previsões. Não temos como dar estatísticas 100% exatas”, adianta, acrescentando que ainda existem 25% de chances das chuvas ocorreram abaixo da média normal e 35% para acontecerem acima.

Já o professor de Antropologia da Unicamp, Renzo Taddei, ressalta que, apesar de uma boa expectativa para este ano, não se pode querer prever os rumos da agricultura, por exemplo. “A meteorologia faz um prognóstico do tempo e não dos plantios, das epidemias ou dos eventos que necessitarão da Defesa Civil”, explica.

Mesmo sem dados determinados, a Funceme sabe qual a milimetragem de chuvas por macrorregiões do Ceará. Assim, é esperado 705 a 1.016 mm (Litoral Norte); 729 a 1.073 mm(Litoral do Pecém); 798 a 1.121 mm (Litoral de Fortaleza); 690 a 911 mm (Maciço de Baturité); 729 a 1.044 mm (Região da Ibiapaba); 555 a 692 mm (Região Jaguaribana); 449 a 605 mm (Sertão Central/Inhamuns); 567 a 729 mm (região do Cariri).

As projeções do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) convergem com as da Funceme. Segundo o geógrafo Tércio Penha, 2009 nem será de muita nem de pouca água. “Nada configura que teremos regiões com seca. A época é de chuvas dentro da média. Mas, como a situação pode mudar a qualquer momento, é melhor evitar dados fechados”, diz.

O prognóstico da Funceme também não destoa muito das previsões feitas pelos profetas das chuvas. No recente encontro em Quixadá, esses estudiosos dos fenômenos naturais foram unâmines em afirmar que o Estado terá um bom inverno, com precipitações que não decepcionarão os agricultores.

Edgel Joseph
Especial para o Regional

PROBABILIDADE

40% é a estimativa, de acordo com a Funceme, para a estação chuvosa acontecer dentro da normalidade, este ano. 25% é a probalidade para ser abaixo da média e 35% para ser acima

SAIBA MAIS

Oceanos
Os oceanos Pacífico e Atlântico são responsáveis pelos índices pluviométricos durante a quadra chuvosa no Estado. Apesar de não ser o único paradigma, a temperatura das águas dos mares atraem ou empurram os ventos para a superfície do Ceará

Fenômenos
Quando as águas do Pacífico estão aquecidas, fenômeno conhecido por ´El Niño´, a circulação de ar na região do Atlântico é efetada, o que inibe a formação de nuvens próximas ao Estado. Se o Pacífico estiver frio, fenômeno conhecido por ´La Niña´, os ventos empurram as nuvens com mais facilidade

Nuvens
Já se as águas do Atlântico Norte estiverem mais frias do que as do Sul, as nuvens descem e garantem chuvas no Estado. Mas se o Atlântico Sul estiver frio, as chances de chover por aqui é menor

Frentes Frias
Nos meses de dezembro e janeiro, temos as chamadas chuvas de pré-estação. Essas não são contabilizadas pela Funceme na quadra chuvosa. O motivo das precipitações são as frentes frias que vêm do Sul do Brasil

Mais informações:
Funceme
Avenida Rui Barbosa, 1246 Fortaleza
(85) 3101.1126
www.funceme.br

PLUVIOMETRIA

Cariri volta a registrar precipitações

Há vários dias o céu se apresenta nublado na região e as chuvas são isoladas

Crato. Depois de vários dias secos e quentes, uma pequena chuva volta a animar os pequenos produtores do Cariri, mas nada que deixe o trabalhador rural otimista quanto ao bom inverno este ano. Pelo menos essa á a perspectiva repassada pelo presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município do Crato, José Hildo Silva.

Há vários dias o céu se apresenta nublado na região e as chuvas são isoladas. As primeiras precipitações, na chamada pré-estação, em dezembro, foi motivo para alguns produtores já aproveitarem as sementes caboclas para o plantio. Em algumas áreas, para os que conseguiram manter o plantio desde dezembro, já estão com o plantio florando, como é o caso do feijão, na localidade de Monte Alverne, no Crato.

As chuvas têm se apresentado de forma isolada na região. A ansiedade dos agricultores, conforme José Hildo, faz com que muitos cheguem a plantar de forma precipitada. Normalmente, segundo ele, o inverno chega a se caracterizar a partir de fevereiro. A região do Cariri é caracteriza no Estado como a área onde a estação chuvosa começa primeiro.

O Governo do Estado lançou o Programa de Distribuição de Sementes de Mudas ainda em dezembro. No Crato, a distribuição ainda está acontecendo, mas o presidente do STR ressalta que também estão sendo entregues, principalmente, sementes de milho e amendoim.

O Programa Garantia Safra beneficia cerca de 2.750 pequenos agricultores. O prazo para entrega dos boletos foi encerrado no último dia 12 e mais de 300 pequenos produtores deixaram de receber. Conforme José Hildo, essa passa a ser uma preocupação por conta da falta de chuvas para o plantio.

Vale do Jaguaribe
As chuvas no Vale do Jaguaribe estão começando bem pelo litoral. Desde a madrugada e por toda a manhã de ontem, com breves pausas, choveu no município de Icapuí, levando as pessoas a se banhar ainda na madrugada nas biqueiras das calçadas, entre os telhados das casas. Um dia antes, Itaiçaba havia registrado a maior chuva na região jaguaribana, com 24,4mm de segunda para terça-feira, ainda que só um começo para o período invernoso que se aproxima.

Aracati também registrou chuva, mas fraca. E também foi na madrugada de ontem que Limoeiro do Norte teve a sua primeira chuva. A cidade ficou nublada por todo o dia. Apesar da breve condensação, já se pode conferir poças de água em algumas ruas do Centro. Hoje, em Nova Jaguaribara, acontece a reunião do Pacto das Águas, para a comunidade participar do Plano Estratégico dos Recursos Hídricos do Ceará.

CHUVAS NO CEARÁ
Uruoca 70
Quiterianópolis 61
Groaíras 55
Granja 54
Novo Oriente 39
Viçosa do Ceará 36,8
Coreaú 32
Sobral 27
Itaiçaba 26
Alcântaras 25
Tamboril 22,4
Pentecoste 22
Baixio 20
Orós 20
Parambu 20
Ipaumiruim 19,4
Chorozinho 19
Crateús 19
Ipaporanga 18
Cascavel 16
Caucaia 15,6
Frecheirinha 15,5
Mauriti 15,4
Russas 15,3
Potiretama 15
Eusébio 15
Aracoiaba 15
Barro 14,2
Maracanaú 14,2
Maranguape 13,4
Itapiúna 12,6
Limoeiro do Norte 15,6
Alto Santo 11,2
Ubajara 11
Fonte: Diário do Nordeste

Chico Lopes questiona autorização da ANEEL para novo reajuste da energia pela COELCE




Chico Lopes está questionando a autorização dada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) para novo reajuste da tarifa de energia elétrica no Ceará, em abril. A ANEEL deferiu Pedido de Reconsideração da COELCE, que solicita aumento das tarifas de energia para todos os consumidores, em virtude de mudanças feitas em 2004 na legislação sobre o ICMS no Estado do Ceará. A agência reguladora autorizou a concessionária a cobrar, a partir de abril, até 8% de reajuste na tarifa, como "compensação".

Em ofício enviado em 30 de dezembro de 2008, sob o No. 322/2008, a ANEEL informou ao governador Cid Gomes e ao deputado federal Chico Lopes sobre a decisão favorável ao pedido apresentado pela Coelce. O processo No. 48500.004290/206-24, da ANEEL, trata do 'deferimento de pleito da COELCE que implica aumento das tarifas de energia elétrica para todos os consumidores de energia elétrica, em virtude de alteração no Regulamento do ICMS do Estado do Ceará'.

Segundo o documento, a diretoria da ANEEL decidiu, por unanimidade, 'deferir o pleito de reconhecimento tarifário do custo adicional causado pela alteração da legislação tributária estadual, relativo ao valor não compensado do ICMS incidente sobre as operações de compra de energia elétrica contratadas junto a centrais geradoras localizadas no Estado do Ceará, especificamente da CGFT e das usinas eólicas da Prainha, Mucuripe e Taíba, condicionado à prévia auditagem das contas/despesas apresentadas e à real comprovação dos seus impactos econômico-financeiros'.
Essa modificação na legislação sobre o ICMS data de 2004, 'quando o diferimento do recolhimento do ICMS na operação interna de circulação de energia elétrica de usina geradora para a distribuidora foi revogado pelos Decretos Estaduais no. 27.487/04 e 27.534/04', registra o ofício da ANEEL. O documento também frisa que 'a recomposição tarifária, para reequilibrar a equação econômico-financeira do contrato de concessão da COELCE (...) decorre única e exclusivamente da alteração, a partir de 2004, das regras de tributação do ICMS no Ceará, de responsabilidade do Poder Executivo.

Lopes questiona decisão
Para o deputado Chico Lopes, o consumidor não pode ser penalizado por um possível prejuízo causado à COELCE por uma mudança na legislação do ICMS, em 2004. "Não podemos aceitar que as agências como a ANEEL decidam, quase sempre, em favor das concessionárias, e não do consumidor", afirma o parlamentar, também membro da Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara Federal. "Compreendemos que as concessionárias têm seus direitos, mas o consumidor é a parte mais fraca nessa relação. E é ele quem vai ter de pagar, agora, por um suposto prejuízo acumulado desde 2004? Seriam 8% de reajuste só por essa mudança do ICMS, somados ainda ao percentual que a COELCE argumentar quanto à inflação nesse último ano?", questiona o parlamentar, mostrando preocupação com o impacto da próxima revisão tarifária, marcada para abril próximo.
Chico Lopes promete enviar ofício à Secretaria da Fazenda do Governo do Estado (SEFAZ), solicitando um parecer sobre o caso. Além de sugerir ao Executivo o estudo de possíveis modificações na legislação sobre o tema – de modo a evitar a continuidade do problema nos próximos anos - providência também citada pela ANEEL no próprio ofício enviado ao governador Cid Gomes.
"Vou ainda fazer um pronunciamento sobre este caso e solicitar à Comissão de Defesa do Consumidor, da Câmara dos Deputados, a instalação de uma Comissão Especial para estudar a Lei das Concessões, especialmente no que diz respeito à política tarifária da energia elétrica", detalha.


Fonte: Ass. Imprensa - Dep. Fed. Chico Lopes - PCdoB-CE

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

A posse de Obama e o vôo das crianças

O culto de domingo (18/01/09) da Igreja Batista da Rua Dezenove em Washington D.C. não foi típico. Entre as pessoas reunidas para celebrar a sua fé, estavam o presidente eleito Barack Obama e a sua família. Às vésperas da posse do novo presidente dos Estados Unidos, é possível imaginar como deveria estar festivo, comovido e agitado o ambiente da igreja. No decorrer do culto um menino declamou: "Rosa Parks ficou sentada para que Martin Luther King Jr. pudesse andar. Martin Luther King andou para que Barack Obama pudesse correr. Barack Obama correu para que todas as crianças possam voar".

Eu penso que é fundamental, nesse momento de grande festa pela posse do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, manter esta perspectiva histórica. Se não tivesse havido Luther King e outros da sua geração que, através das suas lutas pelos direitos civis dos/as negros/as, dedicaram suas vidas à causa do reconhecimento da dignidade de todos os seres humanos, independente da cor da pele, da raça ou etnia, religião, sexualidade, da sua condição física ou mental e econômica, também não teria havido um Obama nos dias de hoje. E se não tivesse havido uma Rosa Parks que foi presa por recusar a dar o seu lugar no ônibus para um homem branco no sul segregacionista dos Estados Unidos e outras mulheres e homens que um dia disseram: "chega!", também provavelmente não teria havido Luther King que conhecemos.

Na cultura atual, perdemos muito da "consciência história" e muitos pensam que a vida e história são feitas de uma somatória de presentes ou de um "eterno presente". Parece que o "salvador" ou grandes transformações ocorrem só porque ocorrem, "de repente", quase como uma geração espontânea; sem relação com as lutas do passado e as condições objetivas do presente. Recuperar a consciência história é uma tarefa educacional fundamental na luta ideológica do nosso tempo.

Mas há um outro ponto importante na declamação do menino: para que possamos consolidar a consciência história que alimenta nossas lutas e esperanças precisamos também de pessoas-símbolos que sintetizem com suas vidas ou atos mais conhecidos a luta, o sofrimento e a esperança de uma geração ou de um povo. Rosa Parks, Luther King e agora Obama são esses símbolos. Assim como na América Latina tivemos Che, D. Hélder, Mons. Proaño, Betinho, Chico Mendes, Irmã Dorothy Stang e outros/as.

Quando falamos de consciência histórica e de símbolos, estamos falando de futuro e da realidade que ainda não existe e que por isso só pode ser apontado através de linguagens poéticas, míticas, religiosas-espirituais ou outras formas de linguagem simbólica. "Rosa Parks sentou... Luther King andou... Obama correu", tudo isso "para que todas as crianças possam voar".

As personagens evocadas são todas negras, mas os seus sonhos não foram sonhos que beneficiassem somente os negros, pois as lutas que valem a pena são as que almejam resgatar a dignidade e direitos de "todas" as crianças e adultos. São lutas de grupos particulares (negros, pobres, camponeses, mulheres, etc.) que carregam dentro de si os valores universais concretos que humanizam todas as pessoas.

Mas estas lutas e caminhadas carregam também dentro de si contradições típicas da nossa condição humana. Para falarmos do futuro ainda não existente, precisamos de linguagens simbólicas que nos remetem para o além do que é. Essa é a riqueza dos símbolos, a "matéria-prima" básica das religiões e das "imaginações utópicas". Só que podemos cair no risco de nos deslumbrarmos com o que as descrições simbólicas nos possibilitam imaginar e perdermos a percepção do que é humanamente possível.

"Sentou... andou... correu (todos no passado)... para que todas as crianças possam voar". É uma bela imagem que revela um movimento e uma direção em busca do "infinito" evocado na imagem de voar em direção ao céu e às estrelas. Só que o desejo de voar e de chegar às estrelas, presente entre humanos desde que "gente é gente", é ambíguo como todos desejos mais ardentes. A mitologia grega nos conta do Ícaro, que morreu ao se esquecer que era humano e que suas asas eram de cera e se aproximou demais do sol. Ele tinha se deixado levar pelo seu desejo e fantasia para além da sua condição humana.

É claro que ninguém interpretou ao "pé da letra" a afirmação "para que todas as crianças possam voar", mas muitos esperam - mesmo que inconscientemente - que Obama faça bem mais do que é possível; assim como há aqueles/as que não vêem nenhuma diferença entre ele e outros presidentes dos Estados Unidos porque não será capaz de fazer o que está além das suas possibilidades como presidente de um país que gosta de ser a única grande potência militar do mundo e ainda a maior economia do mundo.

Amanhã (20/1/09) Obama será empossado o novo presidente dos Estados Unidos. É um grande dia não somente para os norte-americanos, mas também para uma boa parte do mundo. Como alguém que tenta fazer uma análise sócio-teológica, eu tenho dúvidas, esperanças e ressalvas com relação ao que está sendo anunciado pelo (futuro) governo Obama. Mas, eu não consigo não me emocionar quando vejo os rostos de multidões de pessoas anônimas e famosas que festejaram a sua vitória e estão participando com alegria e esperança dos preparativos para a posse.

Jung Mo Sung (Autor de "Cristianismo de libertação: espiritualidade e luta social", Ed. Paulus) Professor de pós-graduação em Ciências da Religião

Fonte: Adital