domingo, 1 de março de 2009

100 anos de nascimento de Patativa do Assaré



Patativa do Assaré foi homem feito de terra, poesia e amizade. Nasceu Antônio. Quando abriu os olhos, estava na Serra de Santana. Era março, dia 5. Por esse mês, o olho do sertanejo corre o céu em busca de chuva. Em 1909 choveu. O menino parece ter marcado encontro com a agricultura. Sem pai aos oito anos, ficaram a mãe, os irmãos mais novos, a enxada e a esperança plantada na terra pouca, herdada. Começou na roça quase ao mesmo tempo em que se deparou com a poesia. Enquanto cultivava a terra, brotavam os versos. Foi assim a vida inteira. Mesmo no verão havia colheita de poesia.

Os filhos, arando a memória, relembram o pai a caminho do roçado, na Serra de Santana, separada de Assaré por 18 km. Geraldo, filho mais velho, traquino e tanjão, chegou a ralhar com Patativa em busca de entendimento. "Pai, na roça, tinha um mexido na boca. Um dia perguntei a ele: 'Com quem o senhor tá falando, se eu tô aqui do lado e num escuto nada?'". "Ói menino, cuide do seu serviço que eu tô fazendo meus versos", ouviu como resposta. À noite, rodeava os filhos em volta da lamparina e recitava o plantio de palavras. Alguns poemas, Patativa esperava a noite quase esbarrar na madrugada para engarranchá-los num pedaço de papel. O roceiro virou um clássico quando os versos de Triste Partida, feitos no roçado e burilados na memória do poeta alvorada adentro, chegaram numa toada pela voz de Luiz Gonzaga, em 1964. Estourou pelos quatro cantos do País. Vinte anos mais tarde, Vaca Estrela, Boi Fubá conquista o Brasil na voz de Fagner.

"Quando a gente crescia ao ponto de poder trabalhar, ia pra roça ajudar. Pai mandava a gente ir na frente, enquanto ele botava água na cabaça. Mas eu sabia que ele queria ficar sozinho pra ir fazendo os poemas dele". A filha Inês era menina de 10 anos quando começou a aprender a conviver com a poesia e o sol estridente, a chuva escassa e a precisão de tudo. "No tempo de pai é que era difícil. Não havia nem estrada para Assaré. Só umas veredinhas pra ir montado". O caçula Pedro recorda quando ia levar o pai para um lugarejo chamado Anduras. "De lá, ele viajava para Assaré ou Crato. Marcava o dia da volta, eu tinha que tá lá esperando". Na seca de 1958, Inês conta que o pai teve de ir para uma frente de serviço na Serra da Ema. Nessa época, Patativa já havia lançado Inspiração Nordestina (1956), era conhecido nas rodas matutas, e na cidade, por causa da viola que ele tocava na feira do Crato e nos sítios, nas disputas de repente.

Foi por esse tempo que o cantor e compositor Abdoral Jamacaru, garoto de uns seis anos, via aquele violeiro no armarinho que o pai dele tinha no centro do Crato, onde Patativa costumava comprar cordas para viola. "Já chegava recitando alguma coisa. Meu pai era muito amigo dele. Quando cresci e compreendi melhor, ele já estava fazendo só poesia. No começo, achava que ele fazia apenas poesia matuta e a linguagem dele era muito diferente da minha. Até que um dia um li o poema Peixe e falei: quem escreve um poema desses não é qualquer um, é um poeta clássico". Abdoral musicou o poema, levou para Patativa ouvir, ele gostou e autorizou a gravação. Peixe foi o segundo disco de Abdoral Jamacaru, que até hoje mora numa casa no centro do Crato. "Patativa ficou famoso pela poesia, mas continuou a mesma pessoa generosa, humana, nunca se fez de rogado para recitar os versos, sentava na calçada com os amigos, fazia brincadeiras comuns, tinha a roça dele, foi consagrado pelo povo. Porque o povo consagra o que é verdadeiro e o povo já tinha consagrado Patativa antes dos intelectuais o consagrarem", afirma Jamacaru.

Patativa do Assaré foi à escola por um semestre. Juntou as sílabas, formou as palavras. Foi o suficiente, como afirmou várias vezes em inúmeras entrevistas publicadas na mídia e nos livros. No entanto, estudou a vida inteira. Leu os clássicos da poesia: Olavo Bilac, Castro Alves, Camões... Estudou métrica e ia buscar no dicionário o sentido exato das palavras que deixava fermentando no juízo para transformar em versos. Sabia de cor todos os poemas dos seis livros que deixou publicado. A memória privilegiada assombrava até poetas como ele. Geraldo Gonçalves, primo legítimo, foi companheiro de poesia de Patativa por mais de 30 anos, fez o teste da memória várias vezes. Tomava uma poesia de um dos livros e dizia: Patativa, e esse poema? Na hora, o poeta recitava. "Era algo extraordinário". Juntos escreveram Poesia ao Pé da Mesa e organizaram o primeiro Balceiro, livro com poesias do Patativa, Geraldo e outros poetas do Assaré. Geraldo conheceu Patativa no tempo das cantorias e do cordel. Só quando Patativa lançou Inspiração Nordestina foi que Geraldo se deu conta do Patativa poeta. O livro lhe abriu as portas da poesia. Depois, passou a escrever versos campestres. Patativa olhava e repetia sem dó nem piedade: "Presta não, presta não". Até que um dia Geraldo compôs Pergunta de Morador. Submeteu ao mestre. Patativa calou-se. Dias depois, o poeta propôs ao amigo: "'Ô Geraldo, você me permite escrever uma resposta ao seu poema?' Soube naquele dia que ele tinha gostado". Saiu com o Resposta do Patrão.

Daí por diante os encontros dos dois foram a três: Geraldo, Patativa e a poesia. Foi Geraldo quem convenceu Patativa a ditar para ele os poemas considerados "imprestáveis". "Ele era assim: exigente, positivo e imprudente", ri-se o poeta e amigo, explicando o significado de imprudência. No caso era ser um tanto quanto ranzinza, com uma pitada de mau humor e uma boa dose de impaciência. Era o tempo que acertava o passo em direção a Patativa.

Assaré e Patativa viveram um caso raro de amor. O poeta tinha duas paixões: a Serra de Santana e Assaré. Em Santana, viveu quase a vida toda numa casa de homem da roça: as paredes de barro sustentadas por um entrançado de madeira fina, sala, quartos, corredor, cozinha. Até que, em meados de 1970, dona Belinha (Belarmina Cidrão), mulher de Patativa, pediu a ele que, antes de morrer, queria morar em Assaré, no quadrado da matriz. Patativa pôs dona Belinha ao lado da Igreja, em 1979. Era dar só alguns passos e ela poderia ir rezar. Enquanto o poeta ganhava o mundo recitando os versos, dona Belinha só fazia um único percurso: de casa para a igreja. Se em Santana Patativa era amigo dos roceiros e cantava no sítio dos conhecidos, mesmo antes de ficar famoso, abaixo, na cidade, Assaré olhava de soslaio para o poeta que já desceu importante. "As pessoas dizem que Patativa não era valorizado em Assaré, mas elas não tinham conhecimento. Agora têm e ele está sendo valorizado", afirma Isabel Cidrão Pio, neta de Patativa, que preside o Memorial Patativa do Assaré. Foi ela quem datilografou os versos do último livro publicado por ele, Aqui tem Coisa. "Ele me fazia ler duas, três vezes a poesia para saber se estava mesmo do jeito que havia ditado. Sabia uma por uma decorada".

O Memorial, fundado em 1999, quando o poeta completou 90 anos, guarda o acervo de objetos pessoais de Patativa, os livros, cordéis, filmes, mas até hoje é mais visitado por turistas do que pela população. A estudante Paula Íris, 19, que trabalha no Memorial e, quando menina, encontrava Patativa na rua e pedia a bênção a ele, demorou para compreender o que ele significava para a cidade. "Eu só sabia que ele era poeta, mas foi preciso ler para conhecer quem ele era. Hoje, lamento que tenha muita gente que ainda não valorize o Patativa pelo que ele foi", afirma a estudante. Neste tempo de festa, ela admite, a visitação pelas pessoas do lugar cresce e o assédio às salas do sobrado tem motivação extra: as "celebridades" que se acercam do lugar. É que o filho ilustre da terra deixou amigos importantes: artistas, políticos, professores universitários, intelectuais que se misturam à simplicidade que cerca a memória do homem que ganhou nome de pássaro.

Pelas ruas do Assaré, difícil é encontrar alguém que não trocou uma palavra com Patativa. As histórias percorrem os arredores do mercado, onde ele comprava cigarros, tomava um café, fazia compras. Se encontrasse alguém que pedisse para ele recitar uma poesia, lá vinha ele com duas ou três. Ficava ali, em pé, debulhando os versos, fosse poesia matuta, fossem os sonetos clássicos. Hoje, Assaré lê os versos de Patativa em todas as ruas da cidade. As placas indicativas têm o nome da rua e um trecho de uma obra do poeta. Patativa do Assaré, seguido pela maior multidão que Assaré já viu, foi sepultado no dia 9 de julho de 2002, no Cemitério São João Batista.


POEMA

Sou fio das mata, cantô da mão grossa,
Trabalho na roça, de inverno e de estio.
A minha choupana é tapada de barro,
Só fumo cigarro de páia de mio.

Sou poeta das brenha, não faço o papé
De argum menestré, ou errante cantô
Que veve vagando, com sua viola,
Cantando, pachola, à percura de amô.


RESUMO - HOMEM
Patativa do Assaré, poeta cearense, nascido no Cariri, se tornou um ícone do povo nordestino. Símbolo de criatividade poética, sua generosidade e apego à poesia são cantados por filhos, amigos, netos e também por aqueles que pesquisaram sua obra. Seus versos animaram a alma do roceiro e plantaram sonhos de liberdade quando o País lutava por democracia.

O NOVO NOME
Antônio Gonçalves da Silva nasceu no dia 5 de março de 1909, na Serra de Santana, a 18 km de Assaré. Ganhou o apelido de Patativa dado pelo amigo José Carvalho, autor do livro O Matuto Cearense e o Caboclo do Pará, publicado em 1931 e que narra o encontro entre José Carvalho e o jovem Antônio.

A CANTORIA E OS CORDÉIS
Rapazote, Patativa comprou uma viola com o dinheiro da venda de uma cabra. Tornou-se cantador nas feiras no Crato e nos encontros de violeiros promovidos nos sítios pelos arredores da Serra de Santana. Escreveu cordéis. A maioria deles foi publicada pela Gráfica São Francisco, do Crato. A Universidade Federal do Ceará publicou uma antologia de cordéis do Patativa. Com o passar do tempo, o poeta abandona os cordéis e se dedica inteiramente à poesia. Nos últimos anos, Patativa nem gosta de falar sobre o assunto.

A TRISTE PARTIDA
De passagem pelo Crato, nos anos 60, Luiz Gonzaga ouve a toada A Triste Partida. Quis saber de quem era. Apresentaram o então, já grande cantor "rei do baião" ao poeta Patativa. Luiz Gonzaga gravou a música em 1964. Fez grande sucesso e se tornou o hino dos imigrantes nordestinos em São Paulo. Luiz Gonzaga e Patativa se tornaram amigos.

SINA DO VAQUEIRO
Num imbróglio que até os dias de hoje se multiplicam as versões, o cantor Fagner grava o poema Vaqueiro, de Patativa do Assaré, e lhe dá um novo nome: Sina. O disco Manera Fru-Fru não dá os créditos do poeta. Um movimento de reação termina por aproximar Fagner do poeta. Anos depois, Fagner grava Vaca Estrela, Boi Fubá, que se torna um grande sucesso em todo o País.

Fonte: Jornal O Povo

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