domingo, 4 de outubro de 2009

A Galáxia da Internet

Como as redes mudaram nossas vidas


Por Rubens Zaidan

Pouca gente prestou atenção em recente e significativa mudança no mais tradicional programa de entrevistas da televisão aberta brasileira, por conta das novas tecnologias. O programa Roda Viva, da TV Cultura, no ar desde 1986, passou a ser transmitido "ao vivo", apenas pela internet. Já pela emissora de televisão, o programa é gravado e exibido sem cortes no mesmo dia, no horário habitual – às 22h30 da segunda-feira. Essa mudança – que os analistas sociais poderiam facilmente rotular de anomalia dentro do paradigma tradicional da mídia – se soma a outras menos "invasivas" à rotina cristalizada do público, mas também importantes e já implantadas no relacionamento das TVs, jornais e emissoras de rádio, preocupadas com a "sedução" da internet. O que foi surpresa para o telespectador cativo do programa da Cultura não chegaria a espantar o sociólogo espanhol Manuel Castells que, em seu livro A galáxia da internet, de 2001, não esconde seu fascínio pelo meio como ferramenta de difusão da informação em escala planetária. Ele estuda há décadas os efeitos da informação sobre a cultura, a economia e a sociedade em geral.

Considerado pela crítica européia como o "primeiro sociólogo do cyber espaço", Castells parafraseia McLuhan – que cunhou a expressão "galáxia de Gutemberg", para se referir a um dos três períodos da evolução das comunicações – no título do livro e na definição do seu objeto de estudo: em A galáxia da internet, a rede é a mensagem. Para Castells, se a tecnologia da informação é hoje o que a eletricidade representou para a "Era Industrial", a internet poderia ser equiparada tanto a uma rede elétrica quanto ao motor elétrico, pela capacidade de distribuir a força da informação em todas as áreas da atividade humana. Ela funciona também como base tecnológica para a forma organizacional da "Era da Informação".

Exclusão social

O sociólogo lamenta que a internet colabore para agravar a situação dos excluídos, especialmente nos grandes aglomerados urbanos, desigualdade social que, para ele, tem como base a educação. Seu livro – cujo subtítulo é "Reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade" – garante ao leitor uma refinada e detalhada interpretação acadêmica sobre os aspectos técnicos, econômicos e culturais sobre a rede, sem perder de vista o destino dos marginalizados do processo: 55 % da humanidade mal sobrevive com menos de dois dólares por dia, faz questão de denunciar. Para Castells, ao lado de um crescimento substancial de produtividade, valor econômico e desenvolvimento tecnológico, houve aumento da exclusão e da desigualdade social.

Desde a publicação de sua trilogia "A Era da Informação", entre 1996 e 1998, o autor se mostra atento às consequências para a economia do uso dessa ferramenta. E quando fala, em A galáxia da internet, sobre orgia financeira, soa como uma profecia para o rombo das hipotecas dos Estados Unidos, que contaminou as finanças do mundo todo, sete anos depois. No entendimento do sociólogo, as redes de computador que transformaram os mercados financeiros provocaram, além da redução de custo dos negócios, mais qualidade, eficiência e satisfação do comprador. Para o autor, a transação eletrônica aumenta o número de investidores, através de redes descentralizadas. O alerta é claro: na era da internet, caracterizada por mercados financeiros sistematicamente voláteis, movidos a informação, a capacidade de viver perigosamente torna-se parte do estilo de vida empresarial. O autor lembra que a nova economia, que tem os negócios eletrônicos à frente, é organizada em torno de redes de computadores, que pela sua própria natureza e agilidade, induzem a inovações, maior grau de insegurança e risco.

O surgimento da internet nos Estados Unidos, segundo Castells, é fruto de um mix curioso e improvável: da big science, da pesquisa militar e da cultura libertária, sempre tendo como base três princípios: estrutura de rede descentralizada, poder computacional – ambos distribuídos através dos nó s da rede – e redundância de funções na rede para diminuir o risco de desconexão.

Tom libertário

A novidade da produção de tecnologia pelos usuários, que além de fazer também a sua inovação, se soma, segundo a análise de Castells, no caso da internet, ao poder de distribuir para todo o mundo, em tempo real, novos usos e as modificações já incorporadas. Isso é suficiente para impulsionar mais rapidamente seu crescimento. O tom libertário do veículo, que Castells considera importante na luta contra governos totalitários – é para ele produto da soma de várias culturas, envolvidas no seu dia-a-dia: tecnomeritocrática, hacker, comunitária virtual e empresarial. Para o especialista, esses fatores estão na base do alicerce organizacional, sempre de acordo com os princípios de liberdade, cooperação, reciprocidade e informalidade.

Castells admite que o maior problema dos governos é saber que se pode apenas vigiar a internet, mas não controlá-la. Os exemplos que driblam as censuras vão desde blogueiros chineses e cubanos, que ploriferaram nos últimos anos, até os recentes protestos contra a violência e a suposta fraude nas eleições iranianas. O sociólogo prega que apesar do desgaste de legitimidade dos governos, o ideal seria a participação dos regimes democráticos na manutenção da liberdade de informação. Melhor ainda se, ao invés dos governos usarem a internet como meio de controle, os cidadãos pudessem controlar os políticos, acessando todas as informações de interesse público.

Individualismo e sociabilidade

Nos anos 1960-1970, era comum a discussão em torno da possibilidade da TV acabar com o diálogo familiar. Muitos estudos inconclusivos foram feitos. Na era da internet, a discussão gira em torno das comunidades virtuais e/ ou sociedades de rede para saber se ela produz isolamento social. Castells admite alguns indícios sob certas circunstâncias, mas diante dos dados de vários estudos, diz que é difícil chegar a uma conclusão definitiva. O que é certo é que a sociabilidade, com base não em laços residenciais, mas em afinidades pessoais ou de grupo, foi intensificada pelo uso da internet, mais especificamente pelo denominado individualismo em rede.

As pessoas, nota Castells, se organizam cada vez mais em redes sociais mediadas por computador. "O individualismo em rede é um padrão social, não um acúmulo de indivíduos isolados", afirma. Essas redes são montadas de acordo com valores, interesses, afinidades e projetos. Daí a explicação para o surgimento de novas formas de relacionamento familiar, com reforço de integração em torno, por exemplo, de um website da família.

Liberdade de expressão x privacidade

Nos Estados Unidos, centro da internet, existe uma decisão da Corte Suprema contra qualquer tipo de controle sobre o meio, "porque há o direito constitucional ao caos". Castells se refere à falta de controle não só política, empresarial e financeira, mas da expressão de forma geral. Na Europa, segundo ele, existem meios mais prudentes que o laissez faire americano, permitindo maior proteção à privacidade. Para Castells, não é a tecnologia e sim o uso que se faz dela que determinará o futuro da sociedade.

O importante desse livro é que ao invés de ditar normas, o autor procura oferecer o máximo de informações sobre o tema, sempre alertando para as alternativas disponíveis. E, como bom intérprete da realidade, acredita na consolidação de uma nova sociedade e na importância dessa ferramenta que alterou para sempre a difusão da informação. A ponto do autor advertir: os que não se importam com ela, podem ser surpreendidos."Se você não se importa com as redes, as redes se importarão com você".

Livro: A Galáxia da Internet
Autor: Manuel Castells – tradução Maria Luiza X. de A. Borges
Editora Zahar, 2003

Fonte: Com Ciência

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Inovações Tecnológicas

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