quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Romaria dos Versos

domingo, 23 de agosto de 2009

Globo X Record: uma guerra privada com armas públicas


Por Rodolfo Vianna

Não há mocinhos em nenhum dos lados da recente briga entre a TV Globo e a Rede Record de Televisão. Também não há mentiras nos ataques de uma contra a outra: os Marinho sempre tiveram uma relação espúria com o poder e a Record, uma interação promíscua com a Igreja Universal do Reino de Deus. Mas o problema central nessa guerra é que estão guerreando com armas alheias. Estão guerreando com armas públicas.

É ingenuidade de pouco eco crer que não existem interesses econômicos e ideológicos guiando os grandes grupos de comunicação do país. A comunicação de massa tem papel estratégico na organização social e criação de valores e a informação também sofre diversos tipos de manipulações, das mais explícitas – edições de texto/imagens, escolha das fontes, qualificações – às mais sutis – o que é silenciado, o “tom” sobre o informado, as relações de uma notícias com outra, a ordem de apresentação.

É por isso que a luta pela democratização da comunicação não se restringe à criação de normas de conduta ao jornalismo hoje praticado, buscando a isenção e objetividade. Essa luta tem de visar a possibilidade de multiplicação de vozes, a multiplicação do que é informado e como é informado, permitindo ao cidadão obter mais dados sobre uma determinada realidade para que, com eles, forme seu juízo. Com o monopólio ou oligopólio da informação, restringem-se as versões da realidade, orientando visões de mundo.

Qual o problema, então, com a recente disputa entre a Rede Globo e a Rede Record? Esta última está expondo a milhões de telespectadores informações que antes só eram conhecidas de um grupo restrito sobre a tenebrosa história da maior emissora do país. A Globo, por sua vez, ataca o sistema nervoso da segunda maior emissora, os incontáveis problemas da Igreja Universal do Reino de Deus. O conflito quebra um tácito pacto de não agressão entre os poderosos, e mais informações são disponibilizadas ao público. Quando dois gigantes brigam, os pequenos podem tirar proveito, imagina-se.

Só que esta “guerra” escancara de uma forma sem precedentes uma prática ilegal e imoral: os interesses privados estão sendo defendidos com armas públicas, as concessões de TV entregues aos Marinho e a Edir Macedo. Ao lançarem mão destas “armas”, comprometem a função social dos meios de comunicação e, mais, infringem normas de utilização de uma concessão pública de radiodifusão.

Diferentemente de um jornal impresso, que é privado e responde atualmente somente às leis dos códigos Civil e Penal (já que não existe mais a Lei de Imprensa...), as emissoras de televisão operam por meio de concessões públicas e, como tais, estão obrigadas a cumprir determinações legais para o seu funcionamento. Não podem fazer o que bem entender com a sua programação, uma vez que só possuem o direito de chegar aos lares de praticamente todos os brasileiros porque o Estado brasileiro, em nome do povo, as tornou concessionárias públicas de radiodifusão.

Portanto, não importa quem tem razão nessa guerra privada entre Globo e Record. As duas cometem um gravíssimo erro ao utilizar a arena pública da radiodifusão de forma privilegiada para travarem as batalhas privadas que lhes interessam. A Rede Globo, caminhando por mais anos nessa estrada, tem mais expertise. Seus interesses são mais bem travestidos de “notícias” relevantes apresentadas à sociedade nos seus telejornais. A Record peca por um amadorismo tacanho, com a edição de “reportagens” em que nem sequer se preocupam em fazer a clássica divisão da objetividade aparente entre “opinião” e “informação”.

Mas não importa o nível de sofisticação de cada uma delas. A disputa Globo x Record é a mais recente e nítida apropriação do público pelo privado.

Em tempo: nestes mesmos dias de “guerra” entre as duas maiores emissoras de TV do país, os representantes dos empresários da área de comunicação se retiraram da comissão organizadora da I Conferência Nacional de Comunicação. A Conferência, prevista para ocorrer no final desse ano, visa a ser um amplo espaço de debate e deliberação sobre temas da área, incluindo as formas de concessão e renovação de espectros de radiodifusão, conteúdo e programação, publicidade etc.

A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) foi uma das entidades que se retiraram do processo. Mais do que isso, foi a entidade que liderou o movimento de esvaziamento da Conferência pelo empresariado.

A Rede Globo e a Rede Record são associadas da Abert. Estão, portanto, do mesmo lado quando a tarefa é sufocar a justa reivindicação do direito de a sociedade brasileira discutir a comunicação.

Malandro é o gato que já nasce de bigode... (Observatório do Direito à Comunicação)


Rodolfo Vianna é jornalista e membro do Intervozes - Coletivo Brasil de Comunicação Social

Fonte: http://carosamigos.terra.com.br/index_site.php?pag=correio&idcorr=63

sábado, 22 de agosto de 2009

Marina Silva e a relação ‘fé e política’

Por Jung Mo Sung

A saída da senadora Marina Silva do PT e sua provável candidatura à presidência do país pelo PV terá algum efeito na relação entre "fé e política" nas comunidades de base e no cristianismo de libertação no Brasil?

Essa pergunta pode parecer estranha, mas eu penso que é bastante pertinente. Uma das grandes novidades do cristianismo de libertação foi a introdução do tema "fé e política" na vida e prática das comunidades cristãs. Na década de 80, era quase impensável alguém ser das comunidades de base e não participar de alguma discussão sobre " fé e política". Uma "fé viva" deveria ser expressa através da participação na política. Naquela época, e ainda hoje em muitos lugares, a "política" da "fé e política" era tudo o que se referia ao bem comum na sociedade. Assim, incluía desde ações sociais na área de saúde até candidaturas de líderes comunitários nas eleições legislativas e executivas em nome da fé cristã. Não havia uma diferenciação entre a ação social, movimento populares, movimentos sociais, ação política e participação nos partidos políticos. Tudo era visto como "Política" (com "P" maiúscula).

Na relação entre fé e política, não havia (e em muitos grupos ainda não há) uma clareza sobre o tipo dessa relação. Assim, com freqüência se ia do campo da fé para o da política de modo direto, sem mediações. Traduzindo isso em um exemplo bem simplificado, podemos dizer que ter uma fé viva significava fazer opção pelos pobres e essa opção pelos pobres, a partir da fé, deveria ser expressa em participação política assumida pela comunidade ou pelas Cebs. Em muitos casos, isso a identificar a participação na comunidade de base com a militância ou adesão a candidatos de um partido assumido pelas lideranças da comunidade. Por isso, em muitas partes do Brasil, ser das Cebs significa ser do PT. É claro que isso não foi em todos os lugares, mas era muito difícil encontrar comunidades de base ou movimentos e grupos de fé e política que tivessem nas suas lideranças pessoas de partidos diferentes. Especialmente de partidos que eram tachados de representantes da burguesia ou do reformismo.

Essa quase identificação natural entre as Cebs e o PT (com algumas exceções, por ex., em algumas regiões do Rio Grande do Sul, o brizolismo dividiu com o PT essa identificação) entrou em uma pequena crise quando surgiu PSOL, que teve entre seus fundadores algumas figuras identificadas com as Cebs e o cristianismo de libertação. Mas, nessa época o tema e o movimento de "fé e política" já estava em crise. Além disso, de um lado, PSOL não teve um grande impacto na vida eclesial e social do país; de outro, diversos setores do cristianismo de libertação viram o PSOL como uma radicalização da opção pelos pobres, da linha mais radical da "fé e política", que seria uma alternativa ao reformismo ou "traição" do governo Lula.

Mas, eu penso que agora, com a candidatura da Marina Silva, as coisas serão diferentes. Não podemos esquecer aqui que o PV, diferentemente do PSOL, não é uma radicalização da postura marxista. A introdução do tema do desenvolvimento sustentável (tratado no artigo anterior) não é um simples adendo ao pensamento marxista tradicional, mas uma ruptura, sem perder de vista as grandes contribuições de Marx. A candidatura dela já nasce forte, com apoio de setores importantes da sociedade e também de figuras destacadas do cristianismo de libertação. Com isso, provavelmente teremos dentro de uma mesma comunidade, grupos ou movimentos cristãos identificados com o cristianismo de libertação uma divisão significativa entre aqueles que apoiarão o PT e o PV na próxima eleição presidencial. Isto é, não haverá mais uma identificação ou uma relação direta entre assumir a fé cristã, na perspectiva da libertação, com uma postura política ou opção partidária.

O pior que poderia acontecer para as comunidades cristãs seria a demonização do PT ou do PV e da candidatura da Marina Silva, na tentativa de manter a visão de que a fé só pode ser expressa socialmente através de um único caminho político-técnico. Eu espero que a divisão política no interior das comunidades de base e do cristianismo de libertação seja visto como um momento de aprendizagem sempre necessária de que comunidade cristã deve ser lugar onde as pessoas celebram e fortalecem a fé cristã libertadora, respeitando pessoas que têm diferentes visões e propostas técnicas ou políticas. Em outras palavras, aprender que entre Fé e Política deve haver uma mediação e que a fé e opções teológico-religiosas não devem ditar as escolhas de caminhos políticos e técnicos na solução dos graves problemas que aflige o povo e o planeta.

Jung Mo Sung, professor de pós-graduação em Ciências da Religião
Fonte: http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=40618